Movimento

Três vozes para Offenbach

Três solistas se destacam no “Hoffmann” do Municipal do Rio, mas epílogo da obra foi desfigurado.

 

Les Contes d’Hoffmann (Os Contos de Hoffmann), ópera dividida em prólogo, três atos e epílogo de Jacques Offenbach sobre libreto de Jules Barbier, com base em um drama – Les Contes Fantastiques d’Hoffmann (Os Contos Fantásticos de Hoffmann) – que o próprio Barbier escreveu a quatro mãos com Michel Carré, foi o segundo título lírico apresentado neste ano no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Depois do Côndor em forma de concerto que abriu a temporada da casa, este Hoffmann subiu ao palco em forma de concerto cênico.


Versão made in Rio

Les Contes d’Hoffmann talvez seja a ópera que contabilize a maior quantidade de versões em toda a história. Offenbach morreu durante os ensaios da obra, enquanto ainda trabalhava nela, e nunca a viu no palco. O compositor, na verdade, deixou totalmente concluído apenas o prólogo (também chamado de ato I); já havia terminado os atos de Olympia e Antonia, mas não chegou a orquestrá-los (deixando, no entanto, indicações precisas da instrumentação desses dois atos); e não chegou a compor alguns trechos no final do ato de Giulietta e do epílogo (também chamado de ato V). O compositor Ernest Guiraud encarregou-se de concluir a obra.

Desde a sua estreia mundial, em 10 de fevereiro de 1881 no Opéra-Comique de Paris (quando subiu ao palco mutilada), a obra recebeu diversas modificações: sofreu cortes inexplicáveis, recebeu acréscimos tanto de material genuíno encontrado posteriormente, quanto de criações de terceiros, e por aí vai. O Municipal do Rio anunciou que apresentaria a versão “mais famosa” da obra, aquela que predominou na maioria dos teatros do mundo durante a maior parte do século XX.

Essa versão escolhida pelo TMRJ não é aquela considerada a mais genuína nos dias atuais – e mesmo esta última não é definitiva, pois, como defende o saudoso Lauro Machado Coelho em seu livro “A Ópera na França”, depois de lembrar que sempre será impossível saber o que Offenbach faria com a obra depois de terminada, “(…) nunca se chegará a uma verdadeira versão definitiva dos Contos de Hoffmann”. Por isso, a versão escolhida pelo Municipal pode ser considerada aceitável, tanto pela sua tradição, quanto pela dificuldade que o teatro teria para adquirir os direitos da versão mais recente. Como se sabe, o TMRJ enfrenta já há alguns anos sérios problemas de orçamento (saiba mais aqui).

O problema é que o que se viu no Municipal foi uma “nova” versão do Hoffmann de Offenbach, made in Rio. Tudo vinha bem até chegar ao epílogo, que foi tão condensado, mas tão condensado, que se perdeu parte considerável da essência da conclusão da obra. Para o público, especialmente para a parte do público que não conhecia antecipadamente a peça, a revelação da Musa da Poesia não ficou clara: a cena apresentada no epílogo não permitiu concluir que Nicklausse era a Musa disfarçada; e a distribuição de frases que deveriam ser cantadas exclusivamente pela Musa entre as intérpretes de Olympia, Giulietta e Antonia (além da própria musa) não está prevista em nenhuma das versões conhecidas da obra.

A opção pela referida distribuição carece, inclusive, de sentido dramático, pois, da maneira como a obra é construída, esses três amores de Hoffmann (ou essas três facetas de uma mesma mulher que ele amava, segundo uma das interpretações possíveis), na verdade, afastavam-no do amor reverenciado no final da ópera, ao qual ele se dedicará: o amor à poesia. Então não faz sentido que elas reapareçam para “inspirá-lo” em direção à poesia.


Três ótimas atuações

O Movimento.com apurou junto a um profissional ligado ao Theatro Municipal que as decisões de cortar o epílogo e de distribuir as falas da Musa da Poesia partiram do diretor artístico da casa, André Heller-Lopes, também responsável pela direção cênica da semiencenação. Esse pode ser considerado o único fato realmente negativo do trabalho do diretor.

Outras opções de Heller-Lopes, como certo exagero no tom caricato dos personagens Cochenille e Frantz, e ainda o posicionamento das solistas da Barcarole em dois camarotes opostos na parte superior do proscênio, embora pudessem ser passíveis de ressalva, não prejudicaram o desenrolar da ação, nem o entendimento da obra. De resto, a semiencenação funciona bem, com boas performances cênicas dos principais solistas. O painel do fundo do palco, criado pelo Coletivo Trovoa, também funcionou bem, contrastando com o tom predominantemente negro da ambientação. Participou ainda a Cia. de Ballet da Escola Maria Olenewa do TMRJ.

Na récita de 19 de maio, o Coro do Theatro Municipal, preparado por Jésus Figueiredo, foi prejudicado, especialmente no prólogo e no ato de Olympia, quando o conjunto é mais exigido, pelo fato de o palco estar totalmente vazado, com as laterais abertas. Sempre que isso ocorre, a qualidade da sonoridade fica comprometida. A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, se esteve longe de uma grande performance, apresentou uma leitura correta da obra, conduzida com segurança por Priscila Bomfim.

Dentre os comprimários, Patrick Oliveira (Luther), Cícero Pires (Hermann) e Ossiandro Brito (Nathanael e Spalanzani) apresentaram interpretações vocais bastante irregulares. Brito, ao menos, demonstrou boa presença. O baixo Murilo Neves (Schlemil e Crespel) ofereceu rendimento regular, exceto quando subia aos agudos e a afinação oscilava.

A mezzosoprano Noeli Mello não convenceu na importante parte de Nicklausse/Musa. Com voz insegura, a performance da artista, que também interpretou o fantasma da mãe de Antonia, não alçou voo em momento algum. Quem acabou roubando a cena foi o tenor Geilson Santos: carismático, o artista, apesar de um ou outro exagero cênico, deu boa conta das partes de Andrès, Pitichinaccio, Cochenille e, especialmente, de Franz, o empregado da casa de Crespel e Antonia, que fez o público delirar com a ária Jour et nuit, je me mets en quatre.

Dentre as intérpretes das amadas de Hoffmann, todas sopranos, Marina Considera foi uma Giulietta vocalmente burocrática, e o trecho mais famoso da ópera, o dueto erótico Belle nuit, ô nuit d’amour (a popularíssima Barcarola), dividido com Noeli Mello, careceu de maior refinamento por parte das duas solistas. Já Maria Gerk, que deu vida à boneca Olympia, é uma artista ainda bem jovem, mas que, carismática, conquistou facilmente a atenção do público. A soprano soube aproveitar o seu grande momento, a canção Les oiseaux dans la charmille, que exige grandes saltos vocais. Se ainda há o que melhorar e evoluir, a matéria-prima Gerk já possui: uma voz afinada, de timbre leve e agradável, e sempre bem projetada.

Chego, enfim, aos três solistas que apresentaram as melhores performances da récita de domingo e que dão título a esta resenha. A soprano Ludmilla Bauerfeldt (indicada pelo Movimento.com como revelação da temporada 2015) ofereceu uma Antonia excelente, vocalmente segura e bastante expressiva. Desde a sua canção inicial, Elle a fui, la tourterelle…, passando pelo dueto com o tenor, C’est une chanson d’amour, até o trio que domina a parte final do ato, Tu ne chanteras plus?, o que se viu foi uma artista que se apresenta em franca ascensão técnica.

O barítono Vinícius Atique enfrentou o desafio de viver os quatro vilões da ópera (Lindorf, Coppélius, Dapertutto e Dr. Miracle) – tarefa hercúlea e que exige grande capacidade interpretativa. Se não chegou a ser perfeito (é preciso descontar um exagero aqui e outro ali), o artista apresentou um ótimo rendimento, com a voz segura e bem projetada, e o canto sempre expressivo. Árias como Dans les rôles d’amoureux langoureux (Lindorf) e Scintille, diamant (Dapertutto), seu confronto com o tenor no prólogo e sua participação em todo o ato de Antonia (Dr. Miracle) fizeram desta a melhor performance de Atique que este autor já pôde presenciar.

Fechando o trio, em tarefa não menos hercúlea, o tenor Eric Herrero interpretou um Hoffmann excelente: rico, expressivo, bem dosado. Em passagens como a canção de Kleinzach (Il était une fois à la cour d’Eisenach!), a ária Amis! L’amour tendre et rêveur, a já citada cena de confronto com o barítono no prólogo, o também mencionado dueto com Antonia e em várias outras participações, o artista soube expressar as diferentes emoções do personagem, confirmando assim a ascensão de sua carreira, já registrada neste espaço nos últimos anos.


Encenação completa

É pena que essa homenagem pelos 200 anos de nascimento de Jacques Offenbach tenha ocorrido em versão semiencenada. Se a obra levou 64 anos para voltar ao palco do TMRJ (a vez anterior data de 1955!), quantos anos mais serão necessários para que retorne devidamente encenada? Pelo menos mais 50 até a próxima grande efeméride do compositor.

Como muitos de nós certamente não estaremos mais dando pinta por aqui, uma opção é dar um pulo a Buenos Aires, onde a ópera será apresentada com encenação completa no Teatro Colón entre 29 de novembro e 07 de dezembro do corrente ano.

No que diz respeito ao Rio, e considerando a crise por que passa o Municipal, é certamente melhor fazer semiencenado do que não fazer, e ainda pudemos contar com três solistas cantando muito bem e, quem sabe, com uma quarta cantora que pode ser uma promessa para o futuro. Só não precisava mutilar o epílogo…

 

Nota do Editor: o Theatro Municipal do Rio de Janeiro não disponibilizou fotos oficiais das apresentações da ópera Os Contos de Hoffmann – motivo pelo qual publicamos a imagem que acompanha este post.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com