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“O caso Makropoulos” no Theatro São Pedro – SP

Ópera de Leoš Janáček estrelada por Eliane Coelho

Arte, vida eterna e uma complexa disputa judicial que se arrasta por um século. Sentimentos e situações da vida e das relações humanas, sem os quais de nada adianta a busca pela juventude eterna. Em junho, o Theatro São Pedro – instituição da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado sob a gestão da Santa Marcelina Cultura – dá continuidade ao ciclo de obras do compositor tcheco Leoš Janáček, desta vez com a ópera O Caso Makropulos. Uma história permeada por fantasia, mas que faz refletir sobre o real sentido da vida.

A montagem estreia no dia 14 de junho e fica em cartaz até o dia 23, com a Orquestra do Theatro São Pedro. Ao todo serão cinco récitas, sempre às 20h, exceto aos domingos, mais cedo, às 17h. Os ingressos custam de R$ 30 a R$ 80 (inteira) e estão à venda na internet theatrosaopedro.byinti.com e na bilheteria do teatro.

O Caso Makropulos é uma história “que se equilibra na corda bamba entre o real e o fantasmagórico” e “Janáček compôs a música mais áspera que já havia escrito até então”, define o jornalista e crítico musical Lauro Machado Coelho (1944-2018) em seu livro A Ópera Tcheca (Ed. Perspectiva, 2003).

Será a primeira encenação da ópera no Brasil (antes, houve uma apresentação em forma de concerto cênico no Rio de Janeiro, há alguns anos, na temporada da Orquestra Petrobras Sinfônica) e, com essa montagem, o Theatro São Pedro segue com a bem-sucedida proposta de estabelecer um ciclo de obras de Janáček, iniciado no ano passado com a estreia brasileira de Kátia Kabanová.

A direção musical será do maestro Ira Levin (EUA) e a direção cênica de André Heller-Lopes, que também assina os figurinos. André e Ira são profundos conhecedores da obra do compositor e repetem a dobradinha da montagem de Kátia Kabanová. A cenografia ficará com Renato Theobaldo, e a iluminação, com Fábio Retti. Ambos, também assinaram a produção do ano passado e Anderson Bueno é o responsável pelo visagismo.

Janáček compôs a música e escreveu o libreto da ópera com base na comédia de Karel Čapek, um dos mais influentes escritores tchecos e que incorporou à literatura o gênero de ficção científica e a palavra robô (do inglês robot), em conjunto com o seu irmão e também escritor Josef Čapek.

A ópera é dividida em três atos e tem a diva lírica Emilia Marty como personagem central, interpretada pela premiada e experiente soprano Eliane Coelho, a mais célebre cantora lírica brasileira dos últimos 50 anos. Marty é, na verdade, a misteriosa Elina Makropulos, que busca reaver a fórmula da juventude eterna criada por seu pai, o alquimista grego Hieronimus Makropulos a pedido do Rei Rudolfo I.

Destacam-se no elenco o tenor Eric Herrero como Albert Gregor; o barítono Vinicius Atique como o advogado Dr. Kolenatý, que defende Albert na causa contra o nobre barão Jaroslav Prus, vivido pelo barítono Michel de Souza. Ele é pai de Janek (o tenor Daniel Umbelino), este apaixonado por Krista, uma aspirante a cantora e interpretada pela mezzosoprano Luisa Francesconi, que faz uma participação especial.

Os tenores Giovanni Tristacci (Vítek) e Mauro Wrona (Hauk-Sendorf), o baixo Anderson Barbosa (Contrarregra), a contralto Nathalia Serrano (Camareira) e a mezzosoprano Fernanda Nagashima (Criada), completam o elenco.

André Heller-Lopes já dirigiu óperas nos principais teatros do Brasil e exterior e O Caso Makropulos será a sua quarta produção de Janáček – em outubro, também encena mais um título do compositor, A Raposinha Astuta, em Bogotá, na Colômbia. Entre os seus trabalhos mais recentes estão Kátia Kabanová, no Theatro São Pedro, e Turandot, de Puccini, no Theatro Municipal de São Paulo, em 2018.

Ira Levin é mundialmente aclamado pela sua versatilidade musical, já regeu centenas de concertos e montagens líricas, e retorna ao Brasil depois de comandar com sucesso Kátia Kabanová e o programa duplo Pulcinella/Arlecchino (2017), ambas no Theatro São Pedro.

 

A montagem

Os pontos de partida para a concepção de O Caso Makropulos foram: a ideia do ciclo Janáček e a soprano Eliane Coelho. Trata-se de uma ópera que requer uma figura especial com forte presença cênica e vocal, cuja história gira em torno dela. Pelo aspecto cênico, a obra descreve a estranha interferência dessa diva na vida de um grupo de pessoas às voltas com um caso judicial.

Elementos de Kátia Kabanová retornam em O Caso Makropulos com um flerte com o universo do próprio compositor: todas as heroínas são reflexo de suas amantes e musas. Agora, a história se passa na década de 1920. A estranha presença e ‘decadência’ física e vital de Emilia Marty é que move toda a trama. A montagem reúne atos cujo realismo vão se deteriorando à medida que a própria existência de Marty e sua compreensão do mundo vão se transformando.

A preocupação com as cores e com o olhar que faça referência à estética de uma época está muito presente na montagem, no que se refere aos cenários, aos figurinos e às luzes. O primeiro ato do espetáculo traz como inspiração os cenários originais de Josef Čapek, de 1926, acrescentando uma referência ao trabalho do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher, um dos grandes representantes do surrealismo, expressionismo e cubismo – três grandes expressões artísticas do movimento moderno que marcou o final do século 19 e a primeira metade do século 20.

Nesta primeira parte, a cor sépia predomina em tudo e todos do elenco, exceto em Emilia Marty, que se destaca pelo uso de um quimono gola quadrada com listras em preto e violeta, e também por outro vestido de tule plissado roxo. Curiosamente é ela, a mulher que deveria estar morta há séculos, que parece ter cor.

No segundo ato os personagens utilizam elegantes trajes de noite predominantemente pretos, exceto Emilia Marty, que se destaca dos demais com um vestido claro e com bordados brilhantes. Para esta parte do espetáculo, André Heller-Lopes traz uma referência do pintor norueguês Edvard Munch com a cortina do teatro saindo direto de seu famoso quadro, O Grito – obra tida como uma das mais importantes do movimento expressionista e que notabilizou Munch, contemporâneo de Janáček, como um dos grandes gênios de sua arte. E para fechar, no terceiro e último ato, a atmosfera mais expressionista de todo o espetáculo. Tudo é marcado pelo vazio. Uma analogia à morte da protagonista da trama.

 

A história

Tudo começa quando Albert Gregor reivindica uma propriedade pertencente ao barão Jaroslav Prus. Emilia Marty, uma altiva cantora de ópera, chega com seu advogado, o Dr. Kolenatý, que acaba de perder o caso, e afirma que um documento encontrado na casa de Jaroslav pode inverter a sentença. Explica que, em 1827, o Barão Prus deixou a propriedade para o seu filho ilegítimo como Ellian MacGregor. Depois, descobre-se que o próprio Gregor é descendente desse filho e o advogado Kolenatý encontra o documento que comprova o vínculo familiar.

Emilia tem muitos admiradores, mas trata a todos com rispidez, exceto um velho que reconhece nela Eugenia Montez. Jaroslav afirma que Gregor não pode reivindicar a propriedade porque a mãe do filho ilegítimo do Barão Prus estava registrada como Elina Makropolus. Emilia, então, pede a Janek, filho de Jaroslav, que furte outro documento e Jaroslav o oferece em troca de uma noite com ela.

No dia seguinte, Jaroslav entrega o envelope, mas descobre que Janek se matou por amor a Emilia. Todos os personagens surgem então e confrontam Emilia Marty, que revela finalmente seu terrível segredo.

 

Curiosidade

Os textos de Čapek têm em comum uma temática centrada em catástrofes fantásticas que, sem cair no sensacionalismo, problematizam dilemas morais e éticos da humanidade, ao mesmo tempo em que satirizam a história tcheca, o comunismo messiânico, a exploração e o consumismo capitalistas, e o militarismo. Tal conjunto de criações faz dele um precursor da ficção especulativa de caráter distópico, posteriormente desenvolvida por escritores como George Orwell, Aldous Huxley e Philip K. Dick.

 

Equipe de Criação

Ira Levin – Direção Musical

André Heller-Lopes – Concepção, Direção Cênica e Figurinos

Renato Theobaldo – Cenografia

Beto Ronilk – Cenógrafo associado

Fábio Retti – Iluminação

Laura Françozo – Figurinista associada

Anderson Bueno | Visagismo

 

Elenco

Eliane Coelho, soprano – Emilia Marty

Eric Herrero, tenor – Albert Gregor

Vinicius Atique, barítono – Dr Kolenatý

Giovanni Tristacci, tenor – Vítek

Luisa Francesconi, mezzosoprano – Krista

Michel de Souza, barítono – Barão Jaroslav Prus

Daniel Umbelino, tenor – Janek

Mauro Wrona, tenor – Hauk-Sendorf

Anderson Barbosa, baixo – Contrarregra

Nathalia Serrano, contralto – Camareira

Fernanda Nagashima, mezzosoprano – Criada

 

 

SERVIÇO

 

O Caso Makropulos (1925), ópera em três atos de Leoš Janáček (1854-1928)

Duração: 2h20 com 2 intervalos

 

Dias 14, 19 e 21 de junho, às 20h; 16 e 23 de junho, às 17h

 
Theatro São Pedro (Rua Barra Funda, 161 – Barra Funda, São Paulo/SP – 3667 0499)

 

Ingressos
Plateia central: R$ 80,00 (inteira) e R$ 40,00 (meia)
1º Balcão: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia)
2º Balcão: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)

Vendas na bilheteria e na internet: theatrosaopedro.byinti.com

Acessibilidade: Sim

 

 

Santa Marcelina Cultura

Criada em 2008, a Santa Marcelina Cultura é uma associação sem fins lucrativos, qualificada como Organização Social de Cultura pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura do Estado. É responsável pela gestão do Guri da capital e região Metropolitana de São Paulo e da Escola de Música do Estado de São Paulo – Tom Jobim (EMESP Tom Jobim). O objetivo da Santa Marcelina Cultura é desenvolver um ciclo completo de formação musical integrado a um projeto de inclusão sociocultural, promovendo a formação de pessoas para a vida e para a sociedade.

Desde maio de 2017, a Santa Marcelina Cultura também gere o Theatro São Pedro, desenvolvendo um trabalho voltado a montagens operísticas profissionais de qualidade aliado à formação de jovens cantores e instrumentistas para a prática e o repertório operístico, além de se debruçar sobre a difusão da música sinfônica e de câmara com apresentações regulares no Theatro.

 

Fotos: Heloisa Bortz

 

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