CríticaLateral

Porque ela gosta e porque ela quer

Uma empoderada Elīna Garanča exibiu sua voz exuberante na Sala São Paulo

 

Jonas Kaufmann, Diana Damrau, Javier Camarena e Anna Netrebko, nesta ordem, todos cantores líricos de enorme projeção internacional, apresentaram-se em São Paulo nos últimos anos (Camarena ao lado da jovem Pretty Yende, que já começa a pleitear a sua entrada no time das grandes estrelas da ópera em atividade).

Todos esses craques do canto foram trazidos à capital paulista por iniciativa do Mozarteum Brasileiro, que, ao valorizar a ópera em suas temporadas, vem prestando um dos serviços mais valiosos ao público amante da lírica em nosso país, ao permitir o contato direto destes ouvintes com a arte daqueles grandes artistas.

Agora, em 2019, o Mozarteum incluiu em sua temporada dois concertos com a especialíssima mezzosoprano letã Elīna Garanča, que se apresentou nos dias 22 e 24 de junho na Sala São Paulo, acompanhada pela Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, sob a regência de Constantine Orbelian.

 

Elina Garanca

 

Expressividade e apuro técnico

Para aquecer o público, a orquestra iniciou a noite do dia 24 com a Abertura da opereta Orphée aux Enfers, de Jacques Offenbach. O começo foi um tanto embolado, mas o conjunto se ajustou em seguida, e os solistas da orquestra apresentaram-se bem na passagem central da peça, especialmente o spalla Wellington Rebouças. O trecho final desta abertura, que remete ao galope infernal do segundo ato da opereta (e que ao longo dos anos acabou associado como o grande símbolo musical do can-can francês), é o tipo de música que anima até velório e acendeu de vez a plateia da Sala São Paulo.

Foi com o entusiasmo deixado pelo galope de Offenbach que o público recebeu Elīna Garanča. A diva letã começou a sua apresentação com a ária Voi lo sapete, o mamma, da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, e já aqui se pôde perceber a maleabilidade do seu instrumento: uma voz intensa e, ao mesmo tempo, flexível, que corre bem do grave ao agudo, sem descuidar dos médios, sempre bem projetada.

Essa flexibilidade vocal ficou ainda mais evidente quando a artista cantou duas árias para diferentes personagens (e diferentes vozes) da ópera Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea. Io son l’umile ancella, da personagem-título (para soprano), e Acerba voluttà, da Princesa de Bouillon (para mezzosoprano), foram interpretadas com a mesma alta qualidade técnica. Quem, como este autor, assistiu à ópera de Cilea no Theatro São Pedro em 2016 finalmente pôde ouvir uma ancella bem cantada.

Depois de a orquestra atacar uma correta Bacchanal, da ópera Samson et Dalila, de Camille Saint-Saëns (e aqui certamente faltou uma leitura mais consistente por parte do regente), Elīna Garanča ofereceu, da mesma ópera, a ária Mon coeur s’ouvre à ta voix. A um só tempo expressiva e delicada, delineando o caráter erótico e sedutor da peça, a interpretação preciosa e refinada da artista atingiu um nível de musicalidade superlativo – tão raro por essas terras – que, por si só, fez valer todo o concerto.

A segunda parte da noite foi dedicada à música espanhola (ou de inspiração espanhola). A orquestra retomou os trabalhos com a Dança Espanhola n° 1, de La Vida Breve, de Manuel de Falla. Elīna Garanča cantou duas árias de zarzuelas (um tipo de opereta típico da Espanha). Com a Canción de Paloma, de El Barberillo de Lavapiés, de Francisco Asenjo Barbieri, e, especialmente, com De España vengo, da zarzuela El Niño Judío, de Pablo Luna Carné, a artista pôde exibir toda a solidez da sua técnica irrepreensível, com pleno dominío da agilidade e da afinação.

O programa oficial foi encerrado com três passagens da ópera Carmen, de Georges Bizet. Depois de a orquestra executar o 1° movimento da Abertura da ópera, a mezzosoprano interpretou duas das passagens mais célebres da obra-prima do compositor francês: L’amour est un oiseau rebelle (popularmente conhecida como “habanera”) e Les tringles des sistres tintaient (popularmente conhecida como “Canção cigana”).

Para o espectador habituado, a inclusão dessas passagens no programa poderiam significar, em um primeiro momento, mais do mesmo, mas não na voz de Garanča. A artista as abordou com tamanha precisão técnica e expressividade, que este autor, que já estava pronto para dizer que o repertório não ousou muito, é obrigado a reconhecer que, sim, ele e todo o público presente na Sala São Paulo precisavam – e muito – conhecer a Carmen desta carismática cantora, capaz de demonstrar uma presença de palco marcante mesmo em um concerto. A foto abaixo expressa isso muito bem.

 

Elina Garanca

 

Empoderada

Bastante aplaudida, a mezzosoprano presenteou o público com quatro peças no bis, começando com a deliciosa Carceleras, da zarzuela Las Hijas del Zebedeo, de Ruperto Chapí. Com seu ritmo marcante, foi cantada com esmero.

Nesses tempos de um justo, e até tardio, empoderamento feminino, Elīna Garanča também deu a sua contribuição para a causa. Seu segundo bis foi No puede ser, da zarzuela La Tabernera del Puerto, de Pablo Sorozábal – uma ária prevista para ser interpretada por um homem.

Conversando com o público em espanhol, Garanča explicou que Sorozábal, antes de morrer, expressou o desejo de que essa passagem fosse um dia interpretada por uma mulher. Ela disse ainda que, a quem lhe pergunta por que cantar uma ária originalmente masculina, simplesmente responde: “porque eu gosto e porque eu quero”.

Exuberante e empoderada, a artista fechou de vez a noite com duas canções: Granada, do compositor mexicano Agustín Lara; e El día que me quieras, de Carlos Gardel, sobre letra de Alfredo Le Pera.

Depois de mais um grande concerto na Sala São Paulo, resta-nos torcer para que o Mozarteum Brasileiro continue incluindo em suas temporadas artistas do quilate de Elīna Garanča, permitindo ao público brasileiro apreciar, sem precisar sair do país, algumas das vozes mais privilegiadas do mundo atualmente. Quem será que vem a São Paulo em 2020?

 

Fotos: Cauê Diniz/Mozarteum Brasileiro

 

Faça seu comentário
Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com