Escrito por em 3 jun 2019 nas áreas Artigo, Lateral

Instituto Odeon, que recebeu cobrança pública em rede social sobre a temporada lírica do TMSP, diz uma coisa e faz outra.

 

Na gíria dos jovens de hoje, “treta” significa algo como “briga” ou “confusão”. As redes sociais estão repletas de tretas, e, no universo virtual, uma “treta” geralmente se caracteriza por grande discussão originada por uma postagem ou comentário. Há alguns dias, rolou uma “treta” na fanpage do Theatro Municipal de São Paulo no Facebook, cá entre nós, bastante pertinente.

Tudo começou quando o professor Sergio Casoy, autor do livro Ópera em São Paulo 1952-2005, comentou um post do TMSP em que este anunciava a primeira edição de um novo projeto que leva para a casa apresentações de peças de teatro. Casoy afirmou que o TMSP “é a Casa de Ópera de São Paulo” e ponderou que a prefeitura paulistana certamente tem “equipamentos culturais suficientes para promover o teatro – sempre muito importante – em espaços mais adequados em vez de abandonar as óperas, vocação do TMSP, relegando-as a uma quantidade ínfima anual para uma metrópole como São Paulo, que chegou a apresentar, no ano de 1957, uma temporada de 29 títulos”.


A ópera é elitista?

Artur Contardi, aparentemente um jovem artista, retrucou que o TMSP “deve ser ocupado com todas as linguagens artísticas possíveis. Assim fica um ambiente eclético e realmente artístico. Por mais que elitista ainda seja”. Casoy retrucou: “não é elitista coisa nenhuma. Há concertos a preços extremamente populares”.

Bem, se o parâmetro for o preço do ingresso, a ópera pode ser o que se quiser no Brasil, menos elitista. Basta verificar quanto se paga para assistir a uma montagem de ópera nos principais teatros da Europa, ou mesmo no Teatro Colón, de Buenos Aires. Perto deles, o que os teatros brasileiros cobram por um ingresso para a ópera é uma bagatela.

Digo mais: bandas de rock, que na percepção popular estão longe de ser classificadas como “elitistas”, apresentam shows por aqui cujos ingressos custam valores elevados para o padrão médio do brasileiro. O show da banda Iron Maiden em São Paulo, por exemplo, oferece ingressos que custam entre R$ 200,00 e R$ 600,00 (com meia-entrada entre R$ 100,00 e R$ 300,00). A ópera O Barbeiro de Sevilha, apresentada em fevereiro último no TMSP, teve ingressos entre R$ 20,00 e R$ 120,00 (com meia-entrada entre R$ 10,00 e R$ 60,00).

Como se pode verificar, o ingresso mais barato cobrado pelo show em São Paulo custa 67% a mais que o ingresso mais caro cobrado pela ópera na mesma cidade. Considerando que outros teatros líricos brasileiros oferecem ingressos ainda mais em conta para a ópera, classificá-la como “elitista”, pelo menos no Brasil, não condiz com a realidade.

É verdade que, para aproximar a ópera de uma maior camada da população, faltam estratégias de marketing mais ousadas, que falem diretamente a um novo público, sobretudo ao público mais jovem. A divulgação tradicional que todos os nossos teatros fazem, basicamente, só atinge o mesmo público de sempre. Não parece haver, no momento, nenhum teatro brasileiro pensando em soluções para esse problema.


Instituto Odeon diz uma coisa, mas faz outra

Voltando à “treta”, depois de vários outros comentários, este autor meteu o bedelho na conversa e disse “O Festival Amazonas de Ópera já anunciou a sua programação de 2020 (veja aqui), enquanto o TMSP segue se omitindo de anunciar a deste ano. Particularmente, não tenho nada contra o teatro se abrir a outras artes, desde que não perca o foco de sua função precípua. O problema é que a ópera está quase sendo deixada de lado”.

Minutos depois, como a “treta” estava ganhando alguma proporção, o próprio TMSP se viu obrigado a entrar na discussão, através de um longo comentário politicamente correto, que começava assim: “O Theatro Municipal de São Paulo é uma casa de Ópera por excelência. Nossa temporada lírica é, e continuará sendo, o cerne da nossa instituição”. O que veio depois é a baboseira habitual que normalmente encontramos nesse tipo de resposta oficial, citando abstrações como “pluralidade de linguagens artísticas” e “multiculturalismo”, e se esquivando de informar algo mais objetivo.

Já que resolveu se manifestar, a casa poderia pelo menos ter informado quando pretende anunciar a sua temporada lírica deste ano. A jornalista Ana Luiza Daltro cobrou isso pouco depois da manifestação do TMSP: “(…) Estamos quase em junho de 2019 e sequer temos uma temporada de ópera anunciada para este ano!!!”. A pesquisadora Fabiana Crepaldi questionou em seguida: “Por falar em temporada, onde podemos encontrar a de 2019?”.

Agora, no momento em que este texto está sendo redigido, já estamos em junho e até agora nada. Depois de apresentar a produção de O Barbeiro de Sevilha em fevereiro, o Instituto Odeon, que administra o TMSP, informou que apresentará Rigoletto em julho (cinco meses depois da primeira ópera!), mas se omite de anunciar uma temporada completa.

Além do exemplo acima mencionado do Festival Amazonas de Ópera, vale lembrar que até outro dia o Theatro São Pedro estava correndo o risco de fechar as portas. Tão logo esse risco foi revertido, a casa da Barra Funda anunciou nada menos que uma temporada completa para 2019. Esse fato ratifica e reforça a situação de omissão em que se encontra o Instituto Odeon.

O pior de tudo é que o Odeon diz uma coisa e faz outra. Diz que a temporada lírica “é, e continuará sendo, o cerne da nossa instituição”, mas não se mexe para anunciar essa mesma temporada. Talvez a dificuldade esteja na ausência de especialistas em ópera na alta administração do TMSP.

Quem é o especialista em ópera da alta administração da casa? Não se sabe. Como o diretor artístico escolhido pelo Instituto Odeon para o TMSP (o ator, diretor e palhaço Hugo Possolo) vai elaborar temporadas líricas e escalar elencos se não é um especialista em vozes? Quem tem poder para escalar os elencos das óperas no TMSP? Também não se sabe, e o Instituto Odeon não faz questão de esclarecer essa dúvida.


“Theatros Municipais” não enviam representantes a Manaus

Fabiana Crepaldi também cobrou: “(…) quem foi representar o Municipal no fim de semana passado, no Festival Amazonas, no evento da OLA? Obrigada”. Ela se referia ao evento em que a Ópera Latinoamérica (OLA) assinou um acordo com o governo federal brasileiro que busca incentivar o intercâmbio de produções entre os teatros da América Latina, por exemplo, criando facilidades alfandegárias para a entrada de cenários e figurinos no país, dentre outras medidas.

Este autor responderá a dúvida da pesquisadora: o Movimento.com apurou que todos os principais teatros brasileiros que produzem ópera foram convidados para o evento, mas apenas o Theatro São Pedro e o Theatro da Paz enviaram representantes. O Theatro Municipal de São Paulo, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o Palácio das Artes não enviaram ninguém.

Segundo um profissional ligado ao Festival Amazonas de Ópera, os secretários de Cultura do estado do Rio de Janeiro, Ruan Lira, e do estado de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, haviam confirmado suas participações, mas cancelaram de véspera, surpreendendo a organização.

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Triste fim da “treta”

Em um dos seus comentários, Ana Luiza Daltro afirmou que “O Theatro Municipal de São Paulo deveria ser, ao lado do Teatro Colón, o maior teatro de ópera e ballet de toda a América Latina. Deveria! (…)”. Ao que Artur Contardi retrucou: “Ué, só mudar para onde tem (SIC) Teatro Colón. Não é difícil”.

Em outras palavras: para Contardi, se há alguma coisa que funciona melhor no exterior, os interessados devem ir morar lá fora, em vez de cobrar a melhoria do que temos aqui em nosso país. Esse tipo de pensamento, infelizmente, é a cara do Brasil de hoje. O Instituto Odeon pareceu concordar com o argumento de Contardi, pois não se deu o trabalho de se manifestar novamente na discussão.

 

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