CríticaÓpera

Um exemplo de equilíbrio

Elenco brilha em excelente montagem de “O Caso Makropulos”

 

Věc Makropulos (O Caso Makropulos), ópera em três atos de Leoš Janáček sobre libreto do próprio compositor, por sua vez baseado num drama de Karel Čapek, é a segunda produção da temporada lírica 2019 do Theatro São Pedro, e tem récitas até o dia 23 de junho. Embora esta seja a primeira montagem completa dessa obra-prima no Brasil, vale registrar que a ópera foi apresentada em forma de concerto cênico no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em outubro de 2010, na programação da Orquestra Petrobras Sinfônica.

 

Entre a aspereza e a intensidade

Composta entre novembro de 1923 e dezembro de 1925, O Caso Makropulos apresenta como tema central uma reflexão filosófica sobre vida e morte, que é desenvolvida através da história de Emilia Marty (ou Elina Makropulos) – uma mulher com mais de 300 anos de idade, cuja vida bastante longeva deve-se a uma poção preparada por seu pai alquimista no século XVI.

Depois de viver por tanto tempo, a protagonista se mostra uma mulher crua (não confundir com cruel). Talvez as perdas que ela sofreu ao longo dos anos, enquanto permanecia com aparência jovial, tenham congelado o seu coração; talvez a sua vida extraordinariamente longeva a tenha feito se despir das emoções que, em condições “normais”, os seres humanos experimentam. Emilia/Elina não se apega mais a nada nem a ninguém, e é assim, crua, que ela se apresenta nos dois primeiros atos da ópera.

No último ato, quando enfrenta a pressão dos demais personagens, que querem forçá-la a contar a sua verdadeira história, Emilia/Elina finalmente percebe que não tem mais motivação para viver. Embora tenha tentado durante toda a ópera reencontrar a fórmula do elixir para renovar a sua vida, ela mesma conclui que a morte é a única saída que lhe serve. E é exatamente quando ela sente a proximidade da morte que, enfim, é possível perceber os seus sentimentos, brilhantemente expressos na música.

Da impressionante cena final, vale destacar a seguinte passagem da protagonista, na qual ela finalmente parece perceber que é a morte que dá sentido à vida: “Ah, não se deve viver tanto! Oh, se vocês soubessem como a sua vida é fácil. Estão tão perto de tudo! Tudo faz sentido para vocês. Tudo tem valor para vocês. Estúpidos, como são felizes. Pelo acaso imbecil de morrerem tão cedo! Acreditam na humanidade, na grandeza, no amor! Vocês não podem querer mais!” (tradução de Irineu Franco Perpétuo).

A partitura de Janáček é, ao mesmo tempo, bastante difícil e extraordinária. Aqui, não existem números estanques, como árias ou duetos convencionais, mas sim uma linha musical contínua que conduz a ação através dos diálogos entre os personagens. A obra é profundamente teatral, e seus diálogos, elaborados sob um notável trabalho rítmico, são muito próximos da linguagem falada.

Se a música é extremamente áspera (por vezes até mesmo bruta) nos dois primeiros atos, a explanação da protagonista no fim da ópera (cujo texto foi parcialmente reproduzido acima) é acompanhada por música radicalmente intensa, expressando assim um contraste que enriquece o sentido dramático da obra: crueza na vida / intensidade na morte. A orquestração é, ao mesmo tempo, rica e desafiadora.

 

Eric Herrero e Eliane Coelho


Encenação quase perfeita

Para a produção em cartaz no Theatro São Pedro, o diretor André Heller-Lopes concebeu uma encenação que funciona maravilhosamente bem, com todos os solistas muito bem dirigidos. O efeito visual geral do espetáculo é belíssimo, com cenários primorosos de Renato Theobaldo. O cenógrafo cria ambientes que parecem se desnudar a cada ato, da mesma forma que, aos poucos, Emilia/Elina vai se revelando: um escritório de advocacia repleto de arquivos no primeiro ato; um palco de teatro vazio no ato intermediário; e um quarto de hotel minimalista no final, composto apenas por elementos essenciais.

A luz de Fábio Retti valoriza a belíssima ambientação criada pelo cenógrafo, especialmente no último ato, quando o efeito visual alcançado é bastante impactante. Os belos e adequados figurinos do próprio Heller-Lopes complementam uma encenação bastante eficiente e quase perfeita.

O advérbio “quase” que empreguei acima se deve a duas opções não muito felizes do encenador. A primeira dessas opções é uma repetição: a sugestão de uma relação sexual envolvendo a prática de dominação/submissão entre Emilia e Prus já havia sito utilizada pelo encenador, no ano passado, em uma cena de Kátia Kabanová entre a Kabanicha e Dikoj. Além disso, tal sugestão bate de frente com o texto da obra. Prus afirma logo após o seu momento íntimo com a protagonista: “Fria como gelo. Como se eu abraçasse uma morta…”. Uma relação de dominação/submissão sempre vai sugerir alguma intensidade, nunca frieza.

A segunda opção duvidosa são os tiros que Prus dispara contra Emilia/Elina pelas costas, depois de perceber a indiferença dela diante do suicídio de Janek. Ora, a protagonista tem uma vida longeva devido a uma poção que lhe foi dada há mais 300 anos, mas ela não é imortal, não é alguém como Wolverine (personagem mutante dos quadrinhos e de vários filmes que tem a capacidade de se autocurar de qualquer ferimento). Como a protagonista leva dois tiros e sequer se apresenta ferida? Não fez sentido.

Apesar desses dois senões, que poderiam muito bem ser revistos em possíveis remontagens, faço questão de reiterar que a encenação, no geral, tem um nível muito alto. E é importante também registrar que outra opção do encenador, ao fazer uma referência no final à coreografia A Morte do Cisne, de Michel Fokine, é um recurso poético válido, que em nada prejudica o entendimento da obra.


Equilíbrio vocal

Na estreia do dia 14 de junho, a Orquestra do Theatro São Pedro esteve muito bem sob a regência segura de Ira Levin. Em se tratando especificamente de Janáček, conjunto e regente se recuperaram da derrapada do ano passado em Kátia Kabanová, quando ofereceram um trabalho bastante irregular. Desta vez, Levin conseguiu extrair da orquestra uma performance bem mais satisfatória, com sonoridade adequada e afinação mais precisa, contribuindo bastante para o resultado final do espetáculo.

Muitas vezes, as produções de ópera no Brasil enfrentam problemas de desequilíbrio vocal em virtude de erros nas escalações dos seus elencos. E quase sempre, mesmo quando os intérpretes principais são bem escalados, há problemas nas partes menores. Por isso, surpreende muito positivamente a escalação do elenco desta montagem de O Caso Makropulos, equilibradíssima até mesmo em suas partes secundárias e terciárias.

Nathalia Serrano esteve bem como a camareira do segundo ato, contracenando com o contrarrega de luxo do ótimo Anderson Barbosa. Fernanda Nagashima exibiu uma voz bastante segura e promissora como a criada do ato final. Na pele do conde Hauk-Šendorf, Mauro Wrona apresentou-se bem, empregando um adequado tom caricato. Daniel Umbelino repetiu como Janek o ótimo nível de suas últimas atuações.

A mezzosoprano Luisa Francesconi interpretou a jovem cantora Krista com a competência de sempre, ainda que esta parte, especificamente, não lhe tenha permitido repetir as suas últimas grandes atuações. Já o tenor Giovanni Tristacci foi um Vítek excelente e bastante musical. Por sua vez, o barítono Michel de Souza viveu o barão Jaroslav Prus com ótima presença e voz impecável.

O barítono Vinicius Atique, que há cerca de um mês destacou-se como os quatro vilões da ópera Os Contos de Hoffmann, apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em forma de concerto cênico, confirmou a sua ascensão na nossa cena lírica ao interpretar na casa da Barra Funda o advogado Dr. Kolenatý. Com excelente atuação cênica e uma voz que correu fácil pelo teatro em todas as suas intervenções, o artista foi um dos principais destaques da noite de estreia. Essas mesmas observações aplicam-se ao tenor Eric Herrero: assim como o barítono, o tenor apresentou um excelente trabalho no Hoffmann do TMRJ, e, agora, deu vida ao endividado Albert Gregor através de uma ótima performance vocal e cênica.

Coube à soprano Eliane Coelho a responsabilidade deste verdadeiro tour de force que é interpretar Emilia Marty/Elina Makropulos, e a artista o fez utilizando-se de toda a sua experiência. Mesmo que a sua voz, aqui ou ali, tenha apresentado algum sinal de cansaço, esse é o tipo de repertório em que a soprano ainda tem amplas condições de expressar a sua arte. Com a sua capacidade de dominar um palco inabalável, Eliane expressou à perfeição tanto a crueza da personagem nos dois primeiros atos, como a sua resignação e a definitiva entrega à morte no ato derradeiro. Como em um crescendo, a artista pareceu preparar ao longo da récita o grande final, e quem esperou por ele foi muito bem recompensado.

Como se pode observar por esta resenha, a produção do Theatro São Pedro para O Caso Makropulos desponta desde já como um dos pontos altos da temporada nacional de ópera de 2019. Ainda há três récitas pela frente, e quem ainda não viu não deveria perder a oportunidade.

Tanto este Janáček, quanto a produção anterior do Theatro São Pedro, La Clemenza di Tito, mereceriam viajar para outros teatros de outras cidades brasileiras, para que mais pessoas pudessem apreciá-las, valorizando o investimento que foi feito em ambas as montagens. Considerando como essas coisas funcionam no Brasil, infelizmente, não é bom esperar por isso.

 

Fotos: Heloisa Bortz. Na foto do post, Vinicius Atique, Eric Herrero e Eliane Coelho.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com