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Cantor lírico ou “showman”?

Tenor Vittorio Grigolo divide opiniões no Municipal do Rio

Nos últimos anos, o público paulistano se habituou a receber alguns dos mais consagrados cantores líricos do planeta. Passaram por São Paulo, em concertos ou recitais, vozes do quilate de Jonas Kaufmann, Diana Damrau, Javier Camarena, Anna Netrebko e, há poucas semanas, Elīna Garanča, todos trazidos pelo Mozarteum Brasileiro.

Aqui no Rio de Janeiro, com a crise política e econômica que assolou (e ainda afeta bastante) o governo do estado, a ópera foi jogada para escanteio no Theatro Municipal, e o que acabou sobressaindo na arte do canto foi a “Série Lírica” da Sala Cecília Meireles. Ali, alguns dos principais cantores brasileiros em atividade se apresentaram em recitais. A Sala chegou até a apresentar duas óperas na íntegra, em forma de concerto cênico (A Voz Humana e Piedade).

Parece que as iniciativas do Mozarteum Brasileiro e da Sala Cecília Meireles inspiraram André Heller-Lopes, diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a criar para a casa a série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro”. O projeto, que é realizado através de uma parceria entre o TMRJ, Ilias Tzempetonidis (diretor de elenco da Ópera de Paris) e o empresário Stefan Ganglberger, inclui ainda master classes para jovens cantores brasileiros. A estreia se deu no último domingo, dia 07 de julho, com um concerto do tenor italiano Vittorio Grigolo, acompanhado pela Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, sob a regência de Ira Levin.

Que a nova série do TMRJ merece grandes elogios é fato inquestionável, mas o concerto capitaneado por Vittorio Grigolo dividiu opiniões: há quem tenha detestado, e há quem tenha adorado.

 

Mais show que concerto

O público mais exigente ficou um tanto decepcionado com o concerto. Para começo de conversa, nitidamente faltou ensaio, como o próprio Grigolo reconheceu quase no fim da apresentação ao conversar com o público em italiano. Os desencontros entre orquestra e solista foram insistentes, chegando ao auge na ária Di quella pira, da ópera O Trovador (Verdi), que encerrou a primeira parte do programa. Um corte um tanto abrupto quase no final da peça, que pareceu não ter sido bem combinado, fez o tenor correr para perto do regente e fuzilá-lo com um olhar quase assassino.

O próprio Ira Levin pareceu, em vários momentos, estar desconfortável com o estilo e com a movimentação demasiadamente histriônica de Vittorio Grigolo. E tudo indica que foi exatamente esse excesso de histrionismo o grande problema do concerto. Ao se preocupar mais com a sua movimentação no palco, deixando em segundo plano a qualidade do canto, Grigolo se perdeu em gestos popularescos. Mais de uma vez tirou o paletó e o jogou sobre o chão do palco, dando a entender que fazia questão de exibir o “peitoral” malhado. Quando era aplaudido, apontava sempre, com um gesto característico, para o balcão superior lateral, onde vários jovens reforçavam a ovação com enorme entusiasmo.

Confirmando uma declaração que deu ao jornal O Globo (“O moderno na ópera é encontrar uma ligação entre o físico e uma linguagem mais antiquada”), Vittorio Grigolo apostou muito no “físico”, na presença de palco e em uma movimentação constante, o que acabou desviando o foco daquilo que realmente interessava ali: a qualidade técnica da sua voz, o nível de aperfeiçoamento da sua arte. Isso parecia, para ele, menos importante.

Se os seus agudos apresentaram emissão eficiente (alguns prolongados desnecessariamente), o mesmo não se pode dizer da região média do seu registro, que perdeu qualidade de projeção em alguns momentos. Ficou evidente, no fim do concerto, que o cansaço físico do intérprete cobrou o seu preço depois de tanta movimentação desnecessária. Das peças interpretadas por Grigolo, as que obtiveram melhor rendimento vocal foram, na primeira parte, Che gelida manina (La Bohème, de Puccini); e, na segunda parte, En fermant les yeux (Manon, de Massenet).

As peças abordadas exclusivamente pela OSTM deixaram a impressão de que também aqui os ensaios foram insuficientes. Alguns solistas do conjunto, como o flautista, cumpriram bem o seu papel. Outros sofreram com afinação oscilante (caso da viola, por exemplo). A Abertura de Nabucco (Verdi) foi a peça que recebeu a melhor abordagem, e mesmo assim, em alguns momentos, o som parecia estar excessivamente alto. A orquestra passou longe de uma grande performance.

 

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Aproximação com os jovens

Nem tudo foram espinhos, há um aspecto positivo no estilo Vittorio Grigolo de ser. O público mais leigo, ou seja, aquela parcela do público que foi ao Municipal apenas se divertir, sem preocupação com o maior apuro técnico do espetáculo (e que geralmente é a maior parcela do público), adorou o showman e o aplaudiu bastante.

Segundo a opinião de uma amiga que encontrei quando já estava saindo do teatro, a performance de Grigolo divertiu sobretudo os jovens, presentes ao concerto em número superior ao habitual e que, segundo ela, saíam do teatro sem aquela impressão sisuda da ópera. Pode ser. Sinceramente, não sei se essa é a melhor maneira de aproximar a ópera dos jovens (creio até que não é), mas, pelo menos no último domingo, pareceu funcionar.

Outro aspecto positivo foi o convite a uma aluna da master class ministrada pelo tenor (a soprano Tatiana Carlos, ex-aluna da saudosa Academia de Ópera Bidu Sayão do TMRJ) para uma participação no bis. Ela cantou com Grigolo a cena do brinde do primeiro ato de La Traviata, de Verdi (Libiamo ne’ lieti calici). A soprano se enrolou um pouco com o texto de sua parte, é verdade, logo no comecinho, talvez por nervosismo, mas cantou bem. É uma iniciativa que não só pode, como deve ser repetida nos futuros concertos desta série. A canção napolitana O sole mio e a ária E lucevan le stelle (da Tosca, de Puccini) também foram apresentadas no bis.

No fim das contas, a impressão derradeira foi a de que Vittorio Grigolo sente-se mais à vontade como um showman, ou seja, como alguém que é muito bom em entreter as pessoas, que como um “simples” cantor lírico. O bom humor de sua presença de palco até poderia ter contribuído para um concerto mais leve, se ele não tivesse se deixado levar quase que o tempo inteiro pelo excesso – excesso este que acabou servindo tão somente para encobrir desajustes técnicos.

Assim, o showman Vittorio Grigolo apresentou um ótimo show no Municipal, que parece ter atendido as expectativas dos jovens e do público leigo; mas o tenor deixou a desejar em muitos aspectos, e a parcela mais exigente do público não saiu satisfeita.

Apesar desses apontamentos, entendo que a série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro” tem tudo para dar certo, e, com os devidos ajustes (dentre os quais a realização adequada de ensaios), poderá atingir resultados mais satisfatórios em breve.

 

Fotos cedidas pelo Theatro Municipal.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com