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Rigoletto – um visual deslumbrante

Ópera de Verdi do Municipal de SP destaca-se pela riqueza de cenários e figurinos.

 

Rigoletto, ópera em três atos e quatro cenas de Giuseppe Verdi sobre libreto de Francesco Maria Piave, com base na peça teatral Le Roi s’Amuse (O Rei se Diverte), de Victor Hugo, é apenas a segunda ópera encenada no Theatro Municipal de São Paulo neste ano. Com dois elencos, as apresentações seguem até o dia 31 de julho (a programação inicial iria até o dia 30, mas a casa abriu récita extra).

A ópera narra a história do bobo da corte de Mântua (Rigoletto), que esconde a sua única filha (Gilda) da corte, e dela esconde o que faz para viver. Ele busca protegê-la da libertinagem que sabe que corre solta na corte, com a sua própria contribuição. É em virtude dessa contribuição que Rigoletto é amaldiçoado pelo Conde Monterone, que teve sua filha seduzida e desonrada pelo Duque de Mântua. Conforme a trama se desenvolve, descobrimos que Gilda, ao ir à igreja, apaixonou-se por um jovem, que ela acredita ser um estudante pobre, mas, na verdade, é o próprio Duque. Acreditando que Gilda é a amante, e não a filha do bobo da corte, e ignorando a prévia ligação dela com o Duque, os cortesãos a sequestram e a levam ao palácio ducal, como um presente para o seu senhor. Quando toma total conhecimento da situação, Rigoletto jura vingança e encaminha a trama para um fim trágico.

Um marco não só na carreira de Verdi, mas na própria história da ópera, Rigoletto é uma obra revolucionária sob vários aspectos, a começar pela música visceral com que um Verdi já totalmente no domínio de sua capacidade expressiva como artista emoldura o libreto de Piave. Esta música, ora bruta, ora doce, ora nervosa, sempre bem marcada por um ritmo preciso, e que nunca abre mão de melodias cativantes e adequadas às situações dramáticas, chama também a atenção pela forma como o compositor trata os recitativos. Estes se mesclam naturalmente aos números tradicionais da ópera (árias, coros, duetos, etc.), sem grandes recortes. E entre o recitativo e a ária, ainda há o Pari siamo, um monólogo ou arioso no qual o protagonista se compara a Sparafucile, numa das cenas mais emblemáticas desta obra-prima, em que pesa o poder da espada e o poder da palavra.

Rigoletto não tem um herói clássico. O tenor (Duque), que na maioria das vezes é o herói, aqui é uma espécie de vilão leviano e libertino, que se preocupa única e exclusivamente consigo. Já o barítono, que geralmente é o antagonista, aqui é uma espécie de anti-herói: Rigoletto, o bufão, é um personagem extremamente rico em sua construção, dividido entre o que faz para sobreviver (ser o bobo da corte de Mântua, irônico, sarcástico e mordaz) e a sua vida particular, na qual é um pai zeloso e amoroso. Complexo, o personagem-título não é maniqueísta, não é só bom ou mau, mas tem em si um pouco dessas duas características como qualquer ser humano, dependendo das circunstâncias.

A ópera aborda, em suas linhas e entrelinhas, temas como libertinagem, misoginia, poder, abuso de poder, exclusão social, amor e desejo de vingança. Em Rigoletto, o governante inconsequente se safa de qualquer punição. Nada muito diferente dos nossos dias e da nossa realidade brasileira. Afinal, apenas alguns dos nossos “governantes” larápios estão pagando por seus crimes. Há muitos e muitos outros soltos por aí.

 

Luiz-Ottávio Faria e Juliana Taino

 Cenários primosoros

A encenação que o diretor brasileiro Jorge Takla concebeu originalmente para o Teatro Colón, de Buenos Aires, e que agora chega a São Paulo (leia mais abaixo maiores detalhes sobre esta parceria) tem caráter tradicional e é visualmente deslumbrante. Sem se preocupar em mudar a época ou o local onde a tragédia se desenrola, Takla se concentra na direção de cena e extrai excelentes atuações de praticamente todos os solistas e também do coro.

Duas liberdades interpretativas do encenador, no entanto, podem ser passíveis de questionamento. Embora o texto da obra permita classificar o Duque de Mântua como libertino, misógino, egoísta, machista e inconsequente, não fica claro em momento algum que ele seja um estuprador, como a cena que Takla inclui durante a abertura da ópera sugere. O personagem, na verdade, é um sedutor, tal qual um Don Giovanni. Seu prazer está na conquista, e uma vez conquistado o objeto do seu desejo, ele o abandona e parte para a próxima empreitada. As mulheres se entregam a ele porque são seduzidas e enganadas, mas não são estupradas.

Durante a obra, o Duque não força nenhuma mulher a nada. Gilda, embora raptada pelos cortesãos, se entrega a ele porque também o deseja, ainda que de forma romântica, como demonstram claramente o dueto de amor do primeiro ato (quando ela ainda o considerava apenas um estudante) e as suas tentativas, no ato final, de desencorajar o pai a se vingar do Duque, momento em que ela declara que ainda o ama.

A segunda liberdade tomada pelo diretor que contraria o texto da obra se dá quando ele sugere, no início da segunda cena do primeiro ato, que Sparafucile controle um grupo de prostitutas e ladras. Ora, Sparafucile é um sicário, um assassino de aluguel, e até poderia ser um cafetão, mas ele não é um ladrão, como deixa claro no terceiro ato em um diálogo com sua irmã, Maddalena. Quando esta sugere que o assassino traia Rigoletto, que contratara seus serviços, ele reage indignado: “Por acaso sou um ladrão? Por acaso sou um bandido? (…)”.

Descontadas essas duas ressalvas, a encenação de Jorge Takla funciona muito bem, e tem seu principal destaque nos cenários primorosos de Nicolás Boni, inspirados no Palazzo del Te e em esculturas de Giambologna (1529-1608). O cenógrafo argentino cria um cenário diferente para cada uma das quatro cenas da ópera, como manda o protocolo, e tem o cuidado de decorar até as laterais e a parte superior do palco. A ambientação é enriquecida pelas belíssimas projeções (ao fundo) de Matías Otárola e pela luz certeira de Ney Bonfante. Os ricos e impecáveis figurinos de Fábio Namatame e a coreografia de Anselmo Zolla complementam uma produção cênica digna de grandes casas de ópera.

 

Fernando Portari e Olga Pudova

A presença do regente assistente

Na récita de estreia, em 20 de julho, Daniel Lee (Conde Ceprano) e Karen Stephanie (Giovanna) exibiram claras deficiências técnicas. Ludmilla Thompson (Pajem), Andrey Mira (Mensageiro) e Carla Rizzi (Condessa Ceprano) foram discretos e não comprometeram. Eduardo Trindade esteve bem como Mateo Borsa, enquanto Wladimyr Carvalho foi quem mais se destacou no grupo das partes menores, ao interpretar Marulo com voz segura e bem projetada.

O barítono David Marcondes cantou de forma irregular a curta e importante parte de Monterone. Bem projetada nos agudos, sua voz sumia na região mais grave. A mezzosoprano Juliana Taino, indicada revelação de 2018 pelo Movimento.com, começou um pouco fria, mas logo aqueceu o seu instrumento e deu boa conta da parte de Maddalena. O baixo Luiz-Ottávio Faria compôs um Sparafucile impecável, com ótima presença e voz perfeita, com destaque para os seus graves de sonoridade invejável.

O tenor Fernando Portari, indicado pelo Movimento.com como melhor cantor das últimas duas temporadas nacionais, apresentou-se irreconhecível como o Duque de Mântua na noite de estreia. Desde a sua cavatina, Questa o quella, era possível perceber que havia algo muito estranho e inabitual em sua voz. Somente depois da récita chegou a informação: o artista cantou gripado. Ainda assim, melhorou no último ato, cantando com correção a aguardada La donna è mobile. Espera-se que sua performance cresça ao longo das récitas.

A soprano russa Olga Pudova demonstrou ter uma voz de lindo timbre e boa projeção ao interpretar Gilda. Também possui o physique du rôle ideal para a parte. Faltou-lhe, porém, trabalhar melhor as coloraturas em sua grande ária, Caro nome. Já o barítono argentino Fabián Veloz interpretou Rigoletto com grande propriedade. O artista domina o palco com ótima presença cênica e carisma, e também possui o physique du rôle ideal para a sua parte. Veloz conseguiu expressar em cena, sobretudo, a complexidade do personagem e as suas angústias. Vocalmente, esquentou ao longo da noite, com um razoável Pari siamo e uma bela interpretação de sua ária do segundo ato, Cortigiani, vil razza dannata.

O Coro Lírico Municipal, preparado por Mário Zaccaro e Sérgio Wernec (este último subiu ao palco no fim da récita), apresentou-se muito bem, cênica e vocalmente. Em um ou dois momentos, houve algum exagero de emissão, mas nada comparado ao que ocorrera na Turandot do fim do ano passado.

A Orquestra Sinfônica Municipal, regida novamente por seu titular, Roberto Minczuk, apresentou evolução em termos de sonoridade e equilíbrio. As cordas estavam bem expressivas. Pelo que pude apurar, a recente contratação do experiente Alessandro Sangiorgi para ser o regente assistente da OSM já está surtindo efeito, pois Sangiorgi atuou orientando Minczuk na preparação deste Rigoletto, e ainda participando diretamente dos ensaios cênicos. Os desencontros entre o palco e o fosso, no entanto, parecem um problema insolúvel com Minczuk na condução de uma ópera.

 

Parceria (?)

É preciso esclarecer que a produção cênica em cartaz em São Paulo não é exatamente a mesma vista em Buenos Aires no último mês de março. Os cenários são os mesmos, mas precisaram ser refeitos em São Paulo. Já os figurinos e a iluminação, de Fábio Namatame e Ney Bonfante, são totalmente novos. Em Buenos Aires, o figurinista havia sido Jesús Ruiz, e o iluminador, José Luis Fioruccio. O coreógrafo também foi outro. Segundo um integrante da produção do espetáculo, o custo de refazer os cenários e figurinos no Brasil foi mais barato do que trazê-los da Argentina para cá, devido aos custos de transporte e taxas alfandegárias.

Vale lembrar que em maio deste ano o governo brasileiro assinou um acordo com a Ópera Latinoamérica (OLA), cujo objetivo é a convergência de esforços entre as instituições para o fomento e o intercâmbio de montagens de ópera na região latino-americana, permitindo a circulação de espetáculos e proporcionando facilidades alfandegárias. Pelo visto, ainda há um longo caminho pela frente até que esse acordo seja realmente posto em prática.

Ainda assim, o espetáculo em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo é visualmente muito rico e tem, no cômputo geral, bom rendimento musical. Merece, portanto, a sua visita.

 

Não houve bis!

Finalmente parece que o bom senso chegou ao TMSP. Não ocorreu a nenhum “iluminado” a ideia estapafúrdia de fazer o popularesco “bis no Municipal” neste Rigoletto. Ninguém falou ao microfone no palco no fim da apresentação. Era só o que faltava, depois do trágico final, bisar La donna è mobile

Segundo pude apurar, a decisão de não seguir com tal iniciativa foi do diretor artístico da casa, Hugo Possolo. Essa não seria, infelizmente, uma decisão definitiva, e seria reanalisada a cada obra apresentada. É pena. Um teatro de ópera oferecer bis por iniciativa própria, sem que este seja exigido pelo público (situação única no mundo, talvez), está apenas exibindo o egocentrismo de alguns dos seus dirigentes, que parecem achar que o que é feito ali é bom demais e precisa ser bisado. Esse julgamento pertence ao público, não aos dirigentes.

 

Temporada do segundo semestre

O TMSP divulgou recentemente a sua programação para o restante deste ano (veja detalhes aqui). No que diz respeito a produções líricas, constam apenas uma ópera contemporânea norte-americana (Prism, de Ellen Reid) e uma opereta (A Viúva Alegre, de Lehár). É pouco, muito pouco, para um teatro que se quer “a principal casa de óperas do Brasil”, conforme a instituição afirma no texto de divulgação do complemento da sua programação 2019.

Considerada anteriormente para este ano, a ópera Navalha na Carne, de Leonardo Martinelli (baseada na obra de Plínio Marcos), encontra-se neste momento adiada para o começo de 2020. Conforme apuração do Movimento.com, o projeto pode ser adiado ainda mais para frente, já que trâmites burocráticos vêm emperrando o seu desenvolvimento.

 

Fotos: Fabiana Sitg. Na foto do post, Olga Pudova e Fabián Veloz

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com