Crítica

Começou para valer

Em bom concerto, tenor Michael Fabiano faz esquecer apresentação decepcionante de colega italiano.

 

Quando o tenor italiano Vittorio Grigolo abriu, no último dia 07 de julho, a série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro”, este autor escreveu no último parágrafo da sua resenha sobre aquele concerto decepcionante: “a série (…) tem tudo para dar certo, e, com os devidos ajustes (…), poderá atingir resultados mais satisfatórios em breve”. Dito e feito: não demorou nada para um resultado bem mais empolgante já no segundo concerto da “Grandes Vozes”.

No último domingo, 25 de agosto, o tenor norte-americano Michael Fabiano foi o astro da segunda de quatro apresentações programadas para este ano. A primeira parte do concerto foi mais empolgante, e como cartão de visitas Fabiano ofereceu a ária Tutto parea sorridere (precedida de recitativo e seguida de cabaletta), da ópera Il Corsaro, de Giuseppe Verdi. Já aqui, o artista apresentou uma voz potente e muito bem projetada, lastreada em técnica segura. E também já aqui, o tenor demonstrou que respeita as partituras que aborda, não apelando para recursos questionáveis, como esticar agudos desnecessariamente apenas para causar efeito, como fizera Grigolo no primeiro concerto da série.

Na ária seguinte, Kuda, kuda, vi udalilis, da ópera Ievguêni Oniéguin, de Tchaikovsky, Fabiano mostrou-se bastante expressivo através de um fraseado elegante, para, em seguida, abordar de forma bastante segura a emblemática Quando le sere al placido, da ópera Luisa Miller, de Verdi. No recitativo que precede esta peça (Ah, fede negar potessi), pôde-se notar toda a sua capacidade de interpretar os sentimentos de um personagem somente com a voz e pequenos gestos.

Na ária que encerrou a primeira parte do programa, porém, Fabiano foi menos eficiente. Em Dein ist mein Ganzes Herz, da opereta Das Land des Lächelns, de Franz Lehár, faltou certo peso à sua voz, ao mesmo tempo em que a orquestra, um pouco alta, dificultava o trabalho do solista.

 

Orquestra empolga com peça de Suppé

Por falar nela, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal teve uma tarde inspirada. Depois da apresentação para se esquecer ao lado de Vittorio Grigolo, o conjunto apresentou-se bem mais consistente ao acompanhar Fabiano. Novamente sobre a regência de Ira Levin, a orquestra abriu a tarde com uma bem cuidada Abertura da ópera I Vespri Siciliani, de Verdi, na qual se destacou a sonoridade expressiva dos violoncelos.

Mais adiante, na Polonaise de Ievguêni Oniéguin, chamou a atenção a musicalidade das madeiras. Já a infalível e sempre empolgante Abertura da opereta Leichte Kavallerie (Cavalaria Ligeira), de Franz von Suppé, foi a peça interpretada exclusivamente pelo conjunto que mais levantou a plateia. Depois do intervalo, a orquestra ainda atacaria, com correção, o Intermezzo, da Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, e ainda trechos das Suítes n.1 (Minueto) e n.2 (Farandole) organizadas com base na música incidental que Georges Bizet compôs para a peça L’Arlésienne, de Alphonse Daudet.

Exceto por alguns poucos desencontros aqui e ali com o tenor, a OSTM acompanhou-o bem, mostrando-se mais bem ensaiada que no primeiro concerto desta série, e também mais atenta à qualidade da sua sonoridade. Ira Levin, por sua vez, pareceu muito mais confortável trabalhando com Fabiano que com Grigolo, o que certamente fez o seu trabalho render mais.

 

Testando repertório

Michael Fabiano voltou ao palco para atacar uma apenas razoável E lucevan le stelle, da Tosca, de Giacomo Puccini. Recuperou-se em seguida com En fermant les yeux, da Manon, de Jules Massenet, abordada com delicadeza e requintes de expressividade.

A ária seguinte, È la solita storia del pastore…, da ópera L’Arlesiana, de Francesco Cilea (ópera esta baseada na mesma peça teatral de Daudet para quem Bizet havia composto música incidental, conforme mencionado acima), recebeu do tenor americano uma interpretação excelente, com intensidade dosada na proporção exata, exceto por uma nota mal encaixada quase no final que não chegou a prejudicar a beleza do todo.

Por outro lado, a célebre Nessun Dorma, da Turandot, de Puccini, apesar do efeito que sempre causa no público, recebeu apenas uma interpretação comum, sem o peso vocal necessário. Ao abordar árias como esta e como aquela apresentada no segundo bis (veja mais abaixo), Fabiano deixou a impressão de estar testando um repertório que pretende interpretar mais adiante em sua carreira, mas para o qual o momento claramente ainda não chegou.

Encerrado o programa oficial, o tenor ofereceu duas peças como bis: a canção Granada, de Agustín Lara, na qual não chegou a impressionar; e a maravilhosa ária Vesti la giubba, da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo. Aqui, mesmo sem o peso necessário de um tenor lírico-dramático, Fabiano saiu-se melhor que em Nessun Dorma, ao expressar muito bem a intensidade do drama do palhaço traído pela esposa que precisa se preparar para alegrar o seu público.

Como se pode observar pelos registros acima, mesmo que não tenha sido um concerto perfeito, agora, sim, começou para valer a série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro”, com um verdadeiro cantor lírico. E o leitor interessado já pode marcar na agenda: o próximo concerto da série será no dia 13 de outubro, com a soprano Lisette Oropesa.

Por fim, vale destacar a presença, como já havia ocorrido no concerto de Grigolo, de crianças/adolescentes de uma escola pública no Balcão Superior (se não me engano, de uma escola que fora visitada por Michael Fabiano durante a semana). De onde eu estava, no Balcão Nobre, dava para perceber algumas expressões de encantamento na garotada. A iniciativa de levar jovens estudantes ao Municipal é muito louvável e merece ser continuada.

 

Foto do post: ensaio de Michael Fabiano com a OSTM e Ira Levin.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com