LateralMúsica antigaProgramaçãoSão Paulo

Coro de Câmara do Vale do Paraíba

“Música antiga: o início de tudo”.

 

Dentro da série “Música antiga: o início de tudo” propomos um concerto no qual se apresenta desde a primeira organização bem sucedida da matéria musical no ocidente – o canto gregoriano do século 6 – às inovações de colorido sonoro dos impressionistas no início do século 20 – que influenciaram o surgimento de gênero como o jazz e a bossa nova – e se demonstra como todos estes elementos estão presentes na contemporaneidade.

Neste percurso histórico de pelo menos 1.500 anos, evidenciamos na prática do repertório da música sacra “a capella” pontos cruciais de transformação e desenvolvimento da música enquanto linguagem e expressão:
1) a configuração de seus elementos estruturais como melodia, ritmo e harmonia;
2) o moldar das texturas como monodia, polifonia e homofonia;
3) a gradativa mudança de paradigma da mística ligada aos números e à geometria (quadrivium) para a poética ligada às palavras (trivium) e à representação dos afetos humanos;
4) as manifestações do universal em instâncias locais como nacionalidades, gêneros e estilos;
5) a expressão de mentalidades e ideologias no âmbito da tradição cristã nas vertentes do catolicismo, anglicanismo e protestantismo.

Por meio de intervenções explicativas entre as peças, demonstraremos com linguagem simples e clara os pontos acima citados seguindo o fio condutor que alia tradição e progresso no processo criativo da música. Acreditamos que a compreensão dos elementos da música e de como se dá sua manipulação nos devidos contextos históricos e estilísticos pode ampliar a percepção de seu processo sócio comunicativo e proporcionar uma melhor e mais rica experiência estética.

Ao final do concerto abriremos espaço para perguntas, comentários e participação direta do público.

 

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Descrição detalhada

O concerto inicia com o canto gregoriano Ubi caritas datado entre os séculos 6 e 10 d.C. seguido da composição de Maurice Duruflé (1902 – 1986) sobre a mesma melodia gregoriana, contudo, apoiada por uma harmonia característica do início do século 20 ainda presente na sonoridade nos dias de hoje. É o fio condutor que alia a tradição à contemporaneidade. Do mesmo modo que o alfabeto latino forneceu a base gramatical para línguas latinas, o canto gregoriano fomentou o desenvolvimento das escalas musicais características do mundo ocidental. Ao apresentarmos estes conceitos ao público, demonstraremos através da repetição de trechos das obras de abertura os elementos melodia (cujo ritmo está associado) e harmonia.

Para melhor compreender o desenvolvimento da harmonia, cantaremos o “Kyrie” da “Missa brevis” do italiano Giovanni Palestrina (1525–1594). Nele o público pode perceber a textura da polifonia, isto é, muitas melodias independentes (no caso, 4) que se entrelaçam e formam um todo orgânico. A isto fazemos analogia às artes visuais, ao princípio da pintura bidimensional (monodia na música) em oposição ao conceito de perspectiva (polifonia) ou, nos dias atuais, ao cinema 2D vs. 3D, 4D, etc.

Paralelamente na Inglaterra, o motete “Ave verum corpus”, de William Byrd (1530 – 1594), revela um estilo que mescla textura homofônica (blocos de acordes) com polifonia imitativa. É uma oportunidade do público perceber as diferentes texturas numa mesma peça. Por fim, o estilo coral utilizado pelo alemão Herich Isaac (1450–1517) constitui a única peça secular de nosso repertório. Esta, foi mais tarde utilizada por Martinho Lutero com texto religioso ao longo da Reforma Protestante, o que contribuiu para a formação do estilo coral luterano. Neste sentido estamos abordando as características nacionais e ideológicas atrelada às obras e compositores, respectivamente Itália católica, Inglaterra anglicana e Alemanha protestante.

Até aqui apresentamos um repertório do período renascentista ligado à mística dos números cujo pensamento tem fundamento na escola pitagórica. A expressão disfórica do canto religioso tem sua raiz no canto gregoriano e o canto polifônico representa seu ápice… são pelo menos mil anos de produção musical. É no início do século 17 que a música passa a ser vinculada às palavras e à representação dos afetos humanos. Apresentamos “Christe, adoramus te”, de Claudio Monteverdi (1567–1640), compositor da escola de Veneza que desenvolve uma paleta expressiva de recursos musicais dramáticos que vão ao encontro do ideal estético humanista que desembocou no desenvolvimento da ópera – gênero musical proeminente nos séculos 17, 18 e 19. O caráter disfórico do canto gregoriano agora contrasta com o caráter eufórico desta nova música sacra mais humana, vivaz e brilhante.

O período que Monteverdi inaugura, o Barroco, tem seu ápice e fim na obra de Johann Sebastian Bach (1685–1750). Este, reúne e condensa todas as técnicas e estilos até então desenvolvidos resultando numa linguagem cuja narrativa (retórica) expressa com dramaticidade afeto e misticismo. Bach é a síntese da música feita até o seu tempo. No último movimento do motete “Singet dem Herrn ein neus Lied” (cantai ao Senhor um cântico novo) podemos perceber como Bach alia a escrita mística polifônica oriunda do Renascimento ao caráter eufórico e vivaz advindo do Barroco.

A escrita “a capella” torna-se rarefeita no Barroco e no classicismo sendo normativa a composição para coro e orquestra. No final do século 18, encontramos um modelo raro de motetes “a capella” na música colonial do Brasil, precisamente na obra de Pe. José Mauricio Nunes Garcia (1767–1830) em seus motetes para a semana santa. Ao executarmos alguns desses motetes abordaremos com o público os elementos que caracterizam a eloquência discursiva da música de José Mauricio e que o torna o primeiro grande compositor brasileiro. As peças do padre compositor executadas nesta última parte do concerto fazem parte do projeto de pesquisa do curso de mestrado em musicologia cursado pelo regente e diretor musical do grupo na ECA – USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo).

Ao final desta jornada pela história do desenvolvimento da linguagem musical através da apreciação da música sacra, encerramos o concerto com o Alleluia, de Ralph Manuel, uma obra contemporânea que reúne texturas e padrões composicionais da música Barroca e Renascentista com a densidade harmônica da música do século 20.

 


PROGRAMA

Maurice Duruflé (1902–1986)
Ubi caritas

Giovanni Perluigi da Palestrina (1525–1594)
Missa Brevis
– Kyrie

William Byrd (1530–1594)
Ave verum corpus

Heirich Isaac (1450–1517)
Innsbruck ich muss dich lassen

Claudio Monteverdi (1567–1643)
Christe adoramus te

Johann Sebastian Bach (1685–1750)
Magnificat, BWV 243
– Sicut locutus

Pe. José Maurício Nunes Garcia (1767–1830)
Motetos de semana santa:
Gradual para domingo de ramos
Domine Jesu
In monte Oliveti
Domine, Tu mihi lava pedes
Judas mercator pessimus

Ralph Manuel (1951)
Alleluya

 


SERVIÇO

 

Coro de Câmara do Vale do Paraíba – “Música antiga: o início de tudo”

 

Dia 29 de agosto, quinta-feira, às 20h

Teatro do SESI A.E. Carvalho (Rua Deodato Saraiva da Silva, 110 – Ermelino Matarazo – São Paulo – SP)

 

Dia 30 de agosto, sexta-feira, às 19h30

Teatro do SESI SESI São José dos Campos  (Av. Cidade Jardim, 4389 – Bosque dos Eucaliptos – São José dos Campos – SP)

 

Dia 31 de agosto, sábado, às 18h30

Teatro do SESI Mogi das Cruzes (Rua Valmet, 171 – Brás Cubas – Mogi das Cruzes – SP)

Entrada franca para as três apresentações.

 

 

Uma amostra do coro:

 

 

 

 

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