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Maria Pia Piscitelli: soprano à altura de três rainhas

Em concerto no Theatro São Pedro, italiana demonstra ser uma artista completa.

 

Entre 1830 e 1838 o compositor italiano Gaetano Donizetti (1797-1848) escreveu três óperas a respeito das intrigas da realeza inglesa durante o século XVI: Anna Bolena (1830), Maria Stuarda (1835) e Roberto Devereux (1838). Informalmente agrupadas como “trilogia Tudor”, não foram, porém, concebidas como uma unidade, não possuem coesão dramática entre si e não são obras do mesmo libretista ou dramaturgo.

Além disso, não são as únicas óperas do compositor sobre esse tema que, na época, estava na moda e era esperado pelo público. Como Anna Bolena foi o primeiro sucesso de Donizetti, abrindo-lhe as portas dos grandes teatros italianos, Il Castello di Kenilworth, de 1829, a primeira a ter uma Tudor (Elizabeth I) como protagonista, acabou caindo no esquecimento.

Em conjunto, as três óperas tratam de quatro rainhas: Anne Boleyn, Jane Seymour, Elizabeth I e Mary Stuart, que em suas versões italianas se tornaram Anna Bolena, Giovanna, Elisabetta e Maria Stuarda. As duas últimas nasceram Tudor; já as duas primeiras se tornaram Tudor através do casamento com Henrique VIII. Anna, Elisabetta e Maria ganharam voz de soprano.

 

Personagens históricos

Segunda mulher do Rei Henry VIII (1491-1547), Anne Boleyn (150?-1536), coroada rainha em 1533, era irmã de uma dama de companhia de sua antecessora, a rainha Catherine de Aragon, primeira esposa do rei. Impaciente com a incapacidade de Catherine de dar-lhe um sucessor, Henry resolveu trocá-la pela jovem Anne. Caso famoso, o divórcio e o novo casamento real trouxeram complicações políticas e religiosas, culminando no rompimento com Roma e na fundação da Igreja Anglicana.

Anne não resolveu, contudo, o problema do Rei. O único fruto do casamento foi Elizabeth I (1533-1603), que viria a se tornar rainha da Inglaterra. Além disso, Anne não era tão submissa quanto o desejado. Acusada de traição, Boleyn foi condenada à morte e executada em 1536, três anos após a sua coroação. Dez dias depois, o Rei já estava casado com Jane Seymour (1508-1537), antiga dama de companhia de suas duas antecessoras. O reinado de Seymour durou pouco mais de um ano: ela morreu após o parto de Edward, o futuro Edward VI, sucessor de Heny VIII.

Passados nove anos e mais três esposas, em 1547 Henry VIII morreu, deixando o trono para o jovem Edward VI, cujo reinado durou até 1553. Após muita disputa, foi sucedido por Mary I (que não é Stuart), católica e filha do primeiro casamento de Henry VIII. Com a morte de Mary I em 1558, foi sua meio irmã Elizabeth I, filha de Boleyn, quem a sucedeu.

Coroada em 15 de janeiro de 1559, Elizabeth I, a última rainha Tudor da Inglaterra, reinou por 44 anos, o culturalmente fértil período elisabetano, durante o qual viveu Shakespeare. Em 1562, contraiu varíola, o que a deixou com pouco cabelo e com pele marcada, sempre dependente de perucas e maquiagem – fato bastante explorado nas óperas.

Conhecida como a rainha virgem, nunca se casou, embora tenha tido vários pretendentes. Desses, o mais importante foi Robert Dudley, Conde de Leicester, por quem parece ter sido apaixonada. No fim de sua vida, também se afeiçoou ao herói militar Robert Devereux (1565-1601), Conde de Essex, sobrinho de Dudley. Em 1601, Devereux tentou armar uma rebelião em Londres. Fracassou e foi executado.

Elizabeth também autorizou a execução de sua prima (sobrinha neta de Henry VIII) Mary Stuart (1542-1587), rainha da Escócia. Após a morte de seu segundo marido e seu posterior casamento com o principal suspeito do assassinato, Mary teve que abdicar e fugir da Escócia. Elizabeth havia tentado casá-la com o Conde de Leicester (sim, aquele que fora seu pretendente mais importante!) para tentar neutralizá-la.

A ideia, porém, não deu certo, e o próprio Leicester não a aprovou. Mary procurou refúgio na Inglaterra em 1568. Por estar na linha de sucessão do trono inglês, acabou passando 19 anos na prisão. Foco de rebeliões, sobretudo de católicos, ela era um problema para a coroa e acabou sendo guilhotinada em 1587.

 

As três óperas e a interpretação de Maria Pia Piscitelli

No último domingo, 25 de agosto, a soprano italiana Maria Pia Piscitelli se apresentou em São Paulo, no Theatro São Pedro, onde interpretou o final das três óperas “Tudor” de Donizetti. Foi acompanhada pela Orquestra Sinfônica de Santo André, sob a regência e direção musical de Abel Rocha e por solistas que cantaram as linhas do coro e dos personagens coadjuvantes: Eduardo Gutierrez e Pedro Côrtes, ambos da Academia de Ópera do Theatro São Pedro, e ainda Andreia Souza, Jéssica Leão, Rodrigo Andrade e Gustavo Lassen.

Com libreto de Felice Romani, a partir das obras dos escritores italianos Ippolito Pindemonte (1753-1828) e Alessandro Pepoli (1757-1796), Anna Bolena trata dos últimos dias da vida da personagem-título, de sua acusação e dos esforços do rei para se casar com Seymour. Da trama também participam Henry Percy, de quem Anna chegou a ser noiva antes de se casar com o Rei, e George Bolena, Visconde de Rochford, irmão de Anna, também condenado à morte. A complexa cena final da ópera, primeira interpretada no concerto, divide-se em recitativos, ariosos, árias e uma poderosa cabaletta final. Tempo, dinâmica, registro, dramaticidade e o grau de lucidez de Anna vão se alterando durante a cena.

A caminho da execução, Anna começa a delirar: estranha os olhares de tristeza (Piangete voi?) no dia que julgava ser o de seu casamento com o Rei. Após uma introdução solene, inicia-se um recitativo não acompanhado no qual Piscitelli canta de modo assertivo. Como é comum em cenas de loucura, é o momento de a soprano exibir toda a sua habilidade com coloraturas e ornamentações, é puro exercício de bel canto, e foi o que aconteceu em Al dolce guidami castel natio, interpretado por Piscitelli com afinação precisa e o amargor de um sonho que brota do delírio, onde Anna pede a Percy que a conduza por ao menos um dia aos seus primeiros anos e dias de amor.

Ainda delirando, Anna diz ouvir um sussurro que é como o ronco de um coração que está morrendo. Após uma marcada mudança de andamento, explica: “é o meu coração ferido” (egli è il mio cor ferito). Esse é um exemplo – e há diversos – de pequenas melodias de Donizetti que Verdi utilizou em suas óperas. É impossível ouvir essa passagem sem lembrar de Tacea la notte placida, de Il Trovatore.

Ponto culminante da ópera é a cabaletta final, Coppia iniqua, que Anna canta em estado de consciência e, quase como um desafio, informa ao casal iníquo que irá ao sepulcro com o perdão nos lábios. A interpretação vigorosa e dramática de Piscitelli foi um dos grandes momentos do concerto.

 

Final de Anna Bolena

Embora menos elaborada musicalmente, das três óperas é Maria Stuarda a mais bem construída do ponto de vista dramático. Tem libreto de Giuseppe Bardari a partir da tradução de Andrea Maffei da peça homônima de Friederich Schiller. Duas rainhas dividem o palco: Elisabetta e Maria Stuarda. Ambas recebem igual destaque: o primeiro ato é todo dominado por Elisabetta, o segundo, pelo eletrizante confronto entre as duas (principal causa da censura da obra em Nápoles, na ocasião da estreia) e o terceiro, por Maria.

O trecho interpretado por Piscitelli no concerto se inicia com um recitativo onde Maria se reencontra com seus apoiadores (Io vi rivedo alfin) e faz uma oração em conjunto com eles, uma simples melodia, quase um hino, que se repete várias vezes (Deh! Tu di un’umile preghiera il suono / Odi, o benefico Dio di pietà). Foi marcante a qualidade do pedal sustentado por Piscitelli enquanto a melodia estava com o coro. Trata-se de um longo pedal que se inicia em pianíssimo (executado com consistência) e vai crescendo. Após curto recitativo, tem início a ária em que Maria enuncia seu último desejo: que seja levado o perdão a quem a ofendeu (D’un cor che muore reca il perdono / A chi m’offese, mi condannò) e, no momento mais dramático desse cantabile, com salto de oitava e coloraturas, proclama que toda culpa será apagada com seu sangue (Tutto col sangue cancellerò).

Com extrema delicadeza, Piscitelli derramou o perdão e as bênçãos de Maria. Na cabaletta final, ela volta a reafirmar seu desejo de que a Inglaterra não seja punida pela injustiça cometida: Non richiami sull’Anglia spergiura / Il flagello d’un dio punitor. Outro momento que Piscitelli interpretou com tocante dignidade, em plena harmonia com a elegante regência de Abel Rocha.

 

Final de Maria Stuarda

Quem havia se emocionado com a delicadeza pungente da interpretação de Maria Stuarda não podia imaginar que o melhor ainda estaria por vir. Roberto Devereux, que tem libreto de Salvatore Cammarano a partir de Elisabeth d’Anglaterre, de Jacques-François Ancelot, vai no sentido oposto ao de Maria Stuarda: sua trama é um dramalhão, uma história de ciúmes, mas musical e dramaticamente é arrebatadora.

O fator determinante para a execução de Devereux na versão operística são os ciúmes de Elisabetta, que descobre que ele estava apaixonado por outra. Além disso, ele não apresenta o anel que ela havia lhe dado e que poderia salvá-lo – e nem poderia apresentá-lo, uma vez que o havia entregue a Sara, por quem jurara amor antes de ela ter se casado com o Duque de Nottingham. A cena final de Roberto Devereux é uma eletrizante e perfeita simbiose entre música e teatro.

Após proclamar, no recitativo, que ela é uma mulher (Io sono donna alfine) e percorrer diversos saltos, todos executados com precisão por Piscitelli, Elisabetta canta seu melodioso e lamentoso Vivi, ingrato, a lei d’accanto, onde cogita perdoar Devereux mesmo sabendo que ele viverá ao lado de sua rival. A soprano demonstrou seu controle sobre as abundantes linhas decrescentes e sobre os portamenti. A dramaticidade aumenta com a chegada de Sara, sua rival, de Nottingham, que queria sangue, e com a notícia de que Devereux já estava morto.

A voz de Piscitelli transforma-se e transmite o desespero crescente até chegar na cabaletta final, Quel sangue versato, cujo tempo indicado na partitura é larghetto maestoso, ou seja, é solene e não é rápido, exigindo uma intérprete do nível de Piscitelli, com apoio, com sustentação. Na cabaletta, Elisabetta, ao contrário de Bolena e Stuarda, que terminam suas óperas falando em perdão, clama por justiça, por vingança contra o casal que culpa pela morte de Devereux.

Como pode ser facilmente percebido pelo ouvinte atento, essa passagem que resulta na abdicação de Elisabetta (mas só na ópera!), antecipa a cabaletta Vien t’affretta da ópera Macbeth, de Verdi, justamente quando Lady Macbeth está antevendo sua ascensão ao trono – e qualquer semelhança não é mera coincidência!

 

Final de Roberto Devereux

 

Além das cenas finais, a Orquestra Sinfônica de Santo André interpretou, sob a regência de Natália Larangeira, as aberturas das três óperas. Com alguns desencontros e uma interpretação bem menos interessante que a conferida aos finais, ficou a impressão de que a atenção dispensada às aberturas nos ensaios foi bem menor. De um modo geral, contudo, foi bastante satisfatório o desempenho da orquestra, com Rocha e Larangeira se alternando na regência.

Maria Pia Piscitelli, uma artista completa, pareceu encarnar cada rainha. Além da cor do vestido – vermelho para a trágica e atormentada Anna Bolena; azul, uma cor fria, que traz a paz, para Maria Stuarda, que busca perdoar e apaziguar, que se mantém altiva até o fim; preto, sóbrio com brilho para Elisabetta, rainha, mulher – Piscitelli mudava também a cor da voz. Sua perfeita técnica deu vida e dramaticidade a Anna Bolena, sua voz aveludada conferiu delicadeza e lirismo a Maria Stuarda e seu vigor deu brilho e transmitiu todo o tormento de Elisabetta.

Piscitelli conhece bem as três rainhas que interpretou em Santo André, São Paulo e, no próximo sábado, 31 de agosto, interpretará também no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – dessa vez, porém, com orquestra, coro e solistas do Theatro Municipal, e sob a regência de Ira Levin. Deu vida às rainhas em importantes teatros como o Liceu de Barcelona e o Scala de Milão. Maria Stuarda ela já cantou em dobro: as duas rivais, Elisabetta e Maria, em dias diferentes, no Scala. Dessa última ópera também participa, como a personagem-título, de um CD pelo selo Naxos.

A soprano italiana está no Brasil trazida pela Cia. Ópera São Paulo, sob direção artística de Paulo Abrão Ésper. Além dos concertos, ministrou master classes em São Paulo. Foi gratificante ver a parceria entre a Cia. Ópera São Paulo e o Theatro São Pedro. É uma parceria saudável e natural, já que ambos têm realizado um trabalho sério e preocupado com a formação de novos cantores. Sem dúvida, foi uma rica experiência e preciosa oportunidade para os seis jovens cantores que acompanharam Piscitelli.

 

Fotos: Victor Rosa Monteiro e Alberto Marcondes. Na foto do post, ao centro, Maria Pia Piscitelli e Abel Rocha.

 

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Fabiana Crepaldi
Doutora em Física pela Unicamp. Frequentadora assídua de óperas e concertos, tem se dedicado ao estudo da história da ópera. Traduziu para o português o libreto da ópera “Tres Sombreros de Copa”, de Ricardo Llorca. Já fez cursos de canto e de curta duração sobre ópera.