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Rossini elevado à máxima potência

“L’Italiana in Algeri” triunfa em São Paulo com encenação brilhante, elenco afiado e regência preciosa.

 

Gioacchino Antonio Rossini contava apenas 21 anos em 1813 quando L’Italiana in Algeri (A Italiana em Argel), sua ópera-bufa em dois atos sobre libreto de Angelo Anelli, subiu ao palco pela primeira vez em Veneza. Até então, ele já havia composto obras importantes, como La Scala di Seta e La Pietra del Paragone, e, no mesmo ano de 1813, saíram também de sua pena Il Signor Bruschino, Tancredi e Aureliano in Palmira.

A capacidade criativa de Rossini parecia infinita, tanto quanto a sua proverbial tendência à procrastinação, que o levava constantemente a deixar as encomendas para a última hora. Tal tendência o levou, em muitos momentos da sua carreira, a reaproveitar trechos escritos originalmente para outras óperas em suas novas encomendas. Apesar disso, é inegável que o compositor foi um gênio da ópera e, mais especificamente, da ópera-bufa.

Várias dentre as suas óperas de caráter não cômico, claro, também possuem grande valor musical, embora sejam constantemente negligenciadas, aparecendo muito esporadicamente nas temporadas mundo a fora. É indiscutível, porém, que Rossini levou a ópera-bufa a um patamar superlativo.

Sua maior obra-prima no gênero, Il Barbiere di Siviglia, estreou no começo de 1816 e, olhando para a trajetória do compositor, não é difícil concluir que, para chegar ao seu maravilhoso Barbeiro, Rossini precisou, antes, escrever L’Italiana in Algeri. A Italiana já apresentava características que apareceriam depois no Barbeiro, como deliciosos números de conjunto, marcados por uma comicidade musical inigualável, e até mesmo situações dramáticas semelhantes.

O fim do primeiro ato, nas duas óperas, apresenta um sentimento generalizado de estupor, e este chamado Finale I (o número musical que encerra o primeiro ato), também nas duas obras, é musicalmente mais bem desenvolvido que o Finale II (o número musical que encerra o último ato). O Finale I da Italiana é um dos finais de atos mais perfeitos do gênero.

 

Liderança feminina

Sob o ponto de vista da trama, a Italiana lembra muito O Rapto do Serralho. Na obra de Mozart, a mocinha é capturada por piratas e vendida como escrava para um Pachá. Este a mantém em seu harém, enquanto o mocinho parte para tentar resgatar a amada. Na Italiana, ao contrário, é o mocinho (Lindoro) que é capturado e escravizado (por Mustafà), enquanto a sua intrépida amante (Isabella) busca resgatá-lo.

Aos olhos de hoje, com o engajamento cada vez maior das mulheres na busca por tratamento igualitário em um mundo ainda muito machista, a obra ganha, muito positivamente, ares feministas. Ao longo da ópera, o machismo de Mustafà é ridicularizado, enquanto a liderança exercida por Isabella é exaltada. No fim, é ela quem, com inteligência e astúcia, exorta o seu amado Lindoro e os seus demais compatriotas escravizados ao engenhoso motim que os conduzirá à liberdade: todos agem sob as ordens dela.

Em sua concepção para a montagem em cartaz no Theatro São Pedro, a encenadora Livia Sabag imagina uma Argel mais próxima dos dias atuais e com características que poderiam ser associadas a muitos lugares. Mustafà é retratado, brilhantemente, como o líder de uma organização criminosa que “trabalha” com tráfico de armas e de pessoas, dentre outros crimes. A ideia é tão rica que o espectador pode enxergá-lo como um terrorista árabe, ou como um miliciano brasileiro. A própria aproximação deste falso líder com armas é bem sugestiva para a nossa realidade tupiniquim.

Já Isabella é retratada como uma mulher independente, determinada, inteligente e sexy, materializando assim conceitos em voga atualmente, como empoderamento feminino e sororidade (conceito este último representado pela repulsa que a protagonista demonstra pela forma como Mustafà trata a sua esposa, Elvira). Lindoro, por sua vez, é apresentado como um jovem de mente aberta que aceita, sem qualquer constrangimento, a liderança exercida por sua amada. A direção de atores é exemplar, e Livia Sabag extrai de todos os solistas e também do coro atuações primorosas. A movimentação cênica tem marcação criativa e inteligente, sempre a serviço da comédia.

Os cenários de Daniela Gogoni constituem um dos pontos mais gratificantes desta montagem. Com soluções simples e funcionais, mas de grande inspiração, a cenógrafa cria ambientes totalmente integrados à proposta da direção. A cena originalmente prevista para a praia, que Gogoni transporta para uma espécie de porto tomado por contêineres (somos levados a crer que estes estão abastecidos com os contrabandos de Mustafà), e também a cena final com o navio cenográfico revelam uma artista criativa, que pode significar um sopro de renovação em um mercado muito concentrado, já que se pode contar nos dedos de uma única mão os cenógrafos que trabalham constantemente com ópera no Brasil.

O mesmo raciocínio vale para a iluminação e para os figurinos: também podemos contar nos dedos de uma única mão figurinistas e iluminadores que contribuem com as montagens líricas brasileiras. Desta forma, se os figurinos do experiente Fábio Namatame mantêm a alta qualidade habitual do seu trabalho, com destaque especial para os trajes inspiradíssimos de Isabella, a luz do jovem Wagner Antônio complementa a ambientação com grande correção e eficiência.

 

Rodolfo Giugliani, Douglas Hahn e Ana Lucia Benedetti

 

Elenco afiado

O elenco reunido para esta Italiana foi um dos mais bem escalados dos últimos tempos em nível nacional, repetindo o que já havia acontecido na produção anterior do Theatro São Pedro, O Caso Makropulos. Na estreia de 02 de agosto, a mezzosoprano Catarina Taira cumpriu bem a pequena parte de Zulma. Já a soprano Ludmilla Bauerfeldt começou um pouco “pesada” como Elvira, exibindo certo excesso de vibrato na introdução ao primeiro ato (Serenate il mesto ciglio). Não demorou, no entanto, a se ajustar e seguiu bem até o fim da récita.

O barítono Rodolfo Giugliani, um dos principais cantores brasileiros de sua geração, deu vida à pequena parte do capitão da guarda de Mustafà, Haly, com técnica precisa. Suas contribuições nos dois finais de ato e em sua ária, Le femmine d’Italia, foram essenciais. Um Haly de luxo, enfim.

O barítono Douglas Hahn interpretou um Taddeo impecável, naquela que muito provavelmente foi a sua melhor performance já presenciada por este autor. Em passagens como o dueto com a mezzosoprano, Ai capricci della sorte, o artista ofereceu ótima presença e voz segura e bem projetada, dotada da leveza e da agilidade necessárias. Sua ária do segundo ato acompanhada pelo coro, Ho un gran peso sulla testa, foi defendida com bravura.

O ótimo baixo-barítono norte-americano Stephen Bronk começou um tanto inseguro como Mustafà. Era nítido que lhe faltavam algumas características necessárias para interpretar a parte, especialmente a agilidade de um verdadeiro baixo-bufo. Assim, suas primeiras intervenções, como a já citada introdução ao primeiro ato e o dueto com o tenor, Se inclinassi a prender moglie, careceram de maior refinamento estilístico. Ao longo da récita, porém, Bronk utilizou-se de sua grande experiência e inteligência cênica para desenvolver seu Mustafà mais satisfatoriamente. A ária do personagem, Già d’insolito ardore nel petto, foi bem defendida, e as suas participações nos demais números de conjunto que se seguiram contribuíram muito positivamente para o triunfo desta Italiana.

Coube ao tenor Anibal Mancini, dono de uma das vozes mais preciosas da lírica brasileira, a parte do jovem Lindoro. Suas duas árias, Languir per una bella e O, come il cor in giubilo, foram interpretadas com precisão técnica encantadora e grande expressividade. Suas intervenções nos grandes números de conjunto (leia mais abaixo), sempre em altíssimo nível vocal, foram essenciais para o resultado final da récita de estreia: quando Mancini canta, parece que o mundo ao redor é acometido por uma paralisia hipnótica, extasiado com a suprema beleza da sua arte.

Também dona de uma das nossas vozes líricas mais privilegiadas de sua geração, a mezzosoprano Ana Lucia Benedetti vinha, já há algum tempo, merecendo um papel protagonista. E, se a sua hora chegou com Isabella, a artista soube agarrar a oportunidade com unhas e dentes, oferecendo ao público uma interpretação exemplar da Italiana de Rossini. Suas primeiras participações, na cavatina Cruda sorte, amor tiranno e no já citado dueto com o barítono, deixaram claro que a noite prometia.

Não perdeu por esperar quem aguardou pelas suas árias do segundo ato: a segunda cavatina, Per lui che adoro (com apartes do baixo, do tenor e do barítono), e, sobretudo, o rondó Pensa alla patria. Exibindo uma voz de agilidade graciosa, belíssimo timbre e técnica refinada, Benedetti ainda dominou o palco com uma presença marcante, dotada de carisma e sensualidade na medida exata. Uma performance, enfim, para se guardar na memória por muito tempo.

 

Valentina Peleggi e Livia Sabag

 

Aula de regência

O Theatro São Pedro, como sabemos todos, não tem um coro estável, e o grupo formado para a ocasião com 12 integrantes, todos homens, preparado por Juliano Dutra, apresentou-se sempre muito bem em passagens como Quanta roba, quanti schiavi!, Viva il grande Kaimakan e Pronti abbiamo. A Orquestra do Theatro São Pedro, conduzida pela italiana Valentina Peleggi, ofereceu um performance excelente durante toda a noite. Na Sinfonia que abre a obra, os solistas do conjunto mostraram grande musicalidade.

O trabalho de Valentina Peleggi na condução desta L’Italiana in Algeri merece uma menção muito especial. Como quase sempre ocorre em Rossini, as partes são importantes, mas é o conjunto e, mais especificamente, o nível de equilíbrio desse conjunto que leva ao sucesso ou ao fracasso. Nesse sentido, a regência preciosa de Peleggi contribui demais para o triunfo da produção. Sua condução da ópera está a serviço do palco e da comédia, gerando um conjunto harmonioso e ricamente musical.

Se, aqui ou ali, o andamento surge um pouco mais lento do que o esperado, isso se deve à atenção que a regente dispensa às necessidades dos cantores ou de algum desses cantores, mas a beleza e o encantamento musical não se dissipam em momento algum. As grandes passagens de conjunto da obra – como o quarteto Ti presento di mia man (para Mustafà, Isabella, Taddeo e Lindoro), que evolui para um quinteto com a entrada de Elvira, o terceto Pappataci! Che mai sento (para Mustafà, Lindoro e Taddeo) e os dois finais de ato – são todas conduzidas com rara e admirável precisão.

O final do primeiro ato, especificamente, que começa com o coro (Viva, viva il flagel delle donne), depois segue com um dueto entre Mustafà e Isabella, vira quarteto com a chegada de Haly e Taddeo, e por fim evolui para um magnífico septeto (Confusi e stupidi) com as intervenções de Lindoro, Elvira e Zulma, está inteiramente na mão da regente, que, com a parceria da encenadora, cria um dos momentos mais especiais que já pude presenciar em uma apresentação ao vivo. É uma verdadeira aula de regência de ópera.

 

Remontagens

A produção em cartaz no Theatro São Pedro leva a Italiana de Rossini à máxima potência. Com récitas até o próximo domingo, dia 11, esta é uma das mais gratificantes montagens de ópera apresentadas no Brasil nos últimos anos. Merece ser apreciada pelo público e conferida por qualquer profissional que trabalhe ou pretenda trabalhar com ópera em nosso país.

Exatamente por disso, seria um crime (faço questão de repetir em letras garrafais: UM CRIME!) se esse espetáculo fosse jogado no lixo, como costuma acontecer, após a última récita. A Santa Marcelina Cultura, que administra o Theatro São Pedro, tem, ou deveria ter, a obrigação de preservar essa produção cênica (cenários e figurinos) para futuras remontagens. E os demais teatros de ópera brasileiros deveriam ter a humildade de levar esta produção para as suas cidades, ampliando o seu alcance para os mais diversos públicos. Essa demonstração de grandeza e de real interesse pela arte de alta qualidade, infelizmente, é rara no meio lírico brasileiro.

 

Regente titular

Afinal, por que até hoje a Santa Marcelina Cultura não designou um(a) regente titular para a Orquestra Sinfônica do Theatro São Pedro? Qual a dificuldade? Dói? Machuca? Qual é o problema, afinal? Será que é tão difícil assim? Alguns dos trabalhos apresentados pelo conjunto nos últimos tempos (como Sonho de uma Noite de Verão, O Caso Makropulos e a presente L’Italiana in Algeri) dão uma boa ideia do nível que essa orquestra poderia desenvolver em termos de sonoridade se tivesse um(a) regente sério(a) e compromissado(a) ao seu lado a maior parte do tempo.

A Santa Marcelina Cultura, que tem apresentado o melhor trabalho de gestão de um teatro de ópera no Brasil nos últimos dois anos, bem que poderia se mexer nesse sentido e corrigir essa lacuna que já está se tornando indefensável.

 

Fotos: Heloísa Bortz. Na foto do post, à frente, Rodolfo Giugliani, Douglas Hahn, Catarina Taira, Ludmilla Bauerfeldt, Stephen Bronk, Ana Lucia Benedetti e Anibal Mancini. Ao fundo, o coro.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com