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As mulheres de “Vanessa”

Produção de ópera de Barber em Guarulhos conta com excelente elenco e encenação inteligente e instigante.

 

Ópera em três atos e cinco cenas de Samuel Barber sobre libreto de Gian Carlo Menotti, Vanessa foi encenada no Teatro Adamastor Centro, em Guarulhos, no último fim de semana. Com as suas duas récitas, dentro da programação da Orquestra Jovem Municipal de Guarulhos, a produção representou nada menos que a estreia brasileira da obra.

Em um primeiro momento, chega a ser espantoso que uma obra da qualidade de Vanessa tenha tido que esperar mais de 60 anos desde a sua estreia mundial, em 1958, para finalmente ser apresentada no Brasil. Mais espantoso ainda é que essa estreia nacional não tenha ocorrido em nenhum dos ditos “principais teatros líricos brasileiros”, mas sim através da temporada de uma orquestra jovem.

Pensando melhor, no entanto, e considerando a forma mais comum como os teatros de ópera brasileiros são administrados (na base da “continuidade zero”; a partir do pressuposto de que “a minha Tosca tem que ser melhor que a sua”), o fato de Vanessa estrear longe dos nossos pequenos “grandes teatros” nem chega a ser tão espantoso assim.

 

Libreto primoroso e idioma musical amplo

O libreto primoroso de Menotti, companheiro do compositor, tem base controversa. Há quem afirme que ele foi inspirado em Seven Gothic Tales (Sete Contos Góticos), de Isak Dinesen (pseudônimo de Karen Blixen), mas sua trama não se parece com nenhum dos referidos contos. Há quem defenda que a inspiração de Menotti tenha vindo apenas da “atmosfera” da obra de Blixen.

Na libreto de Menotti, Vanessa, uma mulher que mantém totalmente cobertos os espelhos da sua casa de campo no norte europeu, espera ali há 20 anos pelo retorno de seu amante, Anatol. Durante todo esse período, sua mãe, a Baronesa, ficou sem falar com ela. Quando Anatol finalmente regressa, descobre-se que a figura que chega à residência é, na verdade, o filho do ex-amante de Vanessa, que ostenta o mesmo nome do seu falecido pai.

Anatol demonstra interesse por Erika, sobrinha de Vanessa, que se deixa seduzir pelo jovem a ponto de se entregar a ele. Ele lhe propõe casamento, mas Erika, desconfiada dos reais interesses de Anatol, não aceita o pedido, apesar de esperar um filho dele. Com a recusa de Erika, o jovem direciona a sua atenção para Vanessa, que cada vez mais se deixa encantar pela corte de Anatol. Os espelhos da casa são descobertos.

Quando o noivado dele com Vanessa é anunciado na festa de Ano Novo, Erika se desespera, foge durante a noite na direção do lago da propriedade, e é encontrada depois, na neve, com vestígios de sangue. A jovem confessa à Baronesa, sua avó, que perdeu o bebê, e a partir daí a Baronesa também deixa de falar com ela. Casados, Vanessa e Anatol deixam a propriedade para morar em Paris. Quando a tia se muda, deixando a propriedade do campo para ela, Erika manda cobrir novamente os espelhos casa, afirmando que é a sua vez de esperar.

O mestre Lauro Machado Coelho, em seu livro “A Ópera nos Estados Unidos”, questiona-se sobre quem é a personagem principal da obra. Ele mesmo responde: “Na verdade, Vanessa e Erika são personagens complementares e, para elas, o que importa – mais do que Anatol – é o amor em si e a espera, símbolo do desejo de atingir o inalcançável. (…) Erika sabe que é um outro lado da persona de Vanessa: ‘Às vezes, sou a sobrinha dela’, diz a Anatol, ‘mas a maior parte do tempo a sua sombra’. Esses sentimentos sombrios e desesperançados são realçados pela ambientação soturna, pela paisagem coberta de neve que as cerca”.

Para Machado Coelho, “O grande encanto de ‘Vanessa’ está não só num libreto extremamente bem construído, mas na facilidade com que a música passa da ação para a reflexão lírica, com que o arioso se expande em cantábiles muito melodiosos”.

O autor conclui: “Trabalhando com as formas operísticas tradicionais – árias, duetos, cenas de conjunto, interlúdios – Barber recorre a um idioma musical muito amplo que, dentro de uma moldura essencialmente lírica e melodiosa, encontra lugar (…) para a dissonância, para as referências folclóricas, e até mesmo para elementos parodísticos. O compositor opõe a alegria de Vanessa à tragédia de Erika superpondo texturas instrumentais contrastantes, frases melódicas de metro diferente”.

 

Flávio Leite, Tati Helene, Luisa Francesconi, Juliana Taino e Marcelo Ferreira

Encenação de cair o queixo

O palco do Teatro Adamastor Centro é acanhado para quem está acostumado a frequentar teatros de ópera. Nem fosso para a orquestra existe ali. Foi preciso, portanto, improvisar. Para a produção de Vanessa, orquestra e regente foram posicionados no fundo do palco, cobertos por uma tela escura. À frente dessa tela, desenvolveu-se a ação – e que ação!

A concepção minimalista do diretor Marcelo Gama mostrou-se ao mesmo tempo inteligente e instigante: com poucos objetos em cena e com todas as mulheres, de alguma forma, vestidas de noiva, o encenador concentrou a essência do seu trabalho na direção de atores e extraiu de todo o elenco atuações excelentes, em um dos mais gratificantes processos de criação que já pude presenciar: uma encenação de cair o queixo (este autor está de boca aberta até agora, enquanto escreve esta resenha).

Cada ator/cantor sabia exatamente o que deveria fazer. Pequenos gestos, olhares, movimentos, tudo foi muito bem trabalhado. As partes mais cômicas, como a cena entre o velho doutor e o mordomo, foram exploradas na medida exata. As intérpretes de Vanessa e de Erika encontraram a proporção perfeita para expressarem as transformações contrastantes de suas personagens.

E nada, absolutamente nada, foi tão impressionante como a postura da personagem da Baronesa: quase sempre calada, quase sempre imóvel, às vezes se expressando apenas através de um gesto de cabeça, seu silêncio e sua presença mostraram-se dramaticamente impactantes.

O cenário extremamente simples e funcional e os figurinos adequados de Ricardo Cosendey (dentre os quais se destacaram os vestidos de noiva, como a sugerir a espera de cada mulher por aquele “que as libertará”) serviram muito bem à proposta da encenação. A iluminação de Wagner Antônio (o mesmo profissional responsável pela luz da elogiada produção de L’Italiana in Algeri, do Theatro São Pedro) era sensível e buscou realçar os momentos mais importantes da ação.

Vale mencionar ainda o excelente trabalho de caracterização dos personagens (visagismo a cargo de David Lenk), especialmente dos mais velhos (Baronesa e Doutor). De longe, a aparência da Baronesa, somada à perfeição do trabalho de sua intérprete, chegava a ser espantosa.

 

Tati Helene, com Flávio Leite ao fundo

 

Ótimo elenco

Na récita do dia 31 de agosto, o coro da Associação Vocal Lírico CoraLeste, preparado por Marcello Mesquita, não chegou a comprometer nas suas poucas intervenções. Já a Orquestra Jovem Municipal de Guarulhos, conduzida por seu regente titular, Emiliano Patarra, ofereceu uma boa apresentação. Em algumas passagens, puderam-se observar problemas de sonoridade, o que entendo ser normal em um grupo jovem abordando uma música difícil. Sobre essa questão sonora, porém, pairava uma leitura concisa, consistente e a serviço do palco, oferecida pelo regente.

Não se pode esperar muita coisa de Vanessa sem um elenco à altura da obra, e havia, sim, em Guarulhos, um ótimo elenco, que contou com a preparação vocal do coach norte-americano Jeremy Reger. Na parte do mordomo, o baixo-barítono Flávio Lauria apresentou-se de forma razoável. Já o barítono Marcelo Ferreira ofereceu uma interpretação bastante consistente do velho Doutor, com boa presença e voz bela, potente e bem projetada.

O tenor Flávio Leite talvez tenha tido a melhor atuação de sua carreira como Anatol. Cenicamente impecável, o artista, que parece ter encontrado o tipo de repertório ideal para a sua voz, deu vida ao jovem de caráter discutível com grande competência. Ainda que aqui ou ali se pudesse notar uma sonoridade não exatamente perfeita, a sua performance como um todo foi muito positiva.

Apesar do bom rendimento do elenco masculino, foram as mulheres de Vanessa que brilharam. A mezzosoprano Juliana Taino foi uma irrepreensível Baronesa. Sua personagem não canta muito, mas, sempre que cantou, a solista demonstrou as qualidades que levaram o Movimento.com a indicá-la revelação da temporada 2018. As passagens da Baronesa calada em cena, sempre impressionantes, demonstraram o crescimento dessa jovem artista.

Por fim, seria injusto dissociar a Erika da mezzosoprano Luisa Francesconi da Vanessa da soprano Tati Helene, pois, como observou Lauro Machado Coelho no trecho de seu livro mencionado no começo desta resenha, as personagens são complementares. A maneira como as duas intérpretes cruzaram as trajetórias ascendente e descendente de tia e sobrinha demonstrou que, para além de grandes cantoras, ambas são também grandes atrizes. Vocalmente impecáveis, cenicamente brilhantes, Francesconi e Helene protagonizaram uma grande noite de ópera.

Como se pode observar pelos apontamentos desta resenha, a produção de Vanessa em Guarulhos insere-se entre os pontos altos da temporada nacional de ópera de 2019. Enquanto um teatro mais rico, como o Municipal de São Paulo, vem fazendo tão pouco pela ópera no Brasil, a produção guarulhense demonstra que, se dinheiro é importante, boas ideias e talento ainda são essenciais.

 

Fotos: Gal Oppido. Na foto do post, Luisa Francesconi e Tati Helene

Leonardo Marques viajou a Guarulhos a convite da produção do espetáculo.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com