CríticaEspírito SantoLateralMúsica de câmara

Indo na contramão

Se você chegou a este texto é porque está conectado neste exato momento. Não adianta: mesmo que alguém se proponha a levar uma vida menos virtual, inevitavelmente passará parte significativa das horas dos seus corridos dias na rede – que, infelizmente, não será uma rede à beira-mar, e sim aquela que chega até nós por meio de cabos pretensamente escondidos no rodapé da sala e por outros dispositivos de aparência (e existência) cinzenta.

Nesse cenário desolador, o que poderia explicar a boa presença de público em um sábado à tarde para assistir a uma orquestra de câmara interpretar Mozart, Haydn e, vejam só, C.P.E. Bach? Sem telas, sem cliques, sem influenciadores digitais, sem curtidas, sem vírus maliciosos e sem fake news? Talvez o mesmo motivo que leve muitas pessoas às aulas de ioga e às feiras de produtos orgânicos: a necessidade de se resgatar um mundo menos acelerado, menos processado, menos polarizado.

Quando a Camerata Sesi, sob a regência de Luís Otávio Santos, pôs-se a tocar os primeiros acordes da Sinfonia em dó maior, H659, de Carl Philipp Emanuel Bach na tarde de 21 de setembro, imediatamente transportou os espectadores para um mundo mais agradável. O programa incluiu, ainda, o Concerto em sol maior para violino e orquestra, de Joseph Haydn, e duas peças de Wolfgang Amadeus Mozart: o sombrio Adágio e Fuga, K. 546, e o ensolarado Divertimento em ré maior, K. 136.

A Camerata já conta com respeitáveis onze anos de atividades, um feito a ser louvado nesse nosso país de orquestras de vida curta e de políticos de vida longa. Tecnicamente, se trata de um conjunto apto a executar com certa tranquilidade o repertório barroco e clássico, aventurando-se de vez em quando na música do Romantismo e até mesmo em obras modernas e contemporâneas. Contudo, o grande feito da Camerata não está em sua competência técnica: está na alegria de se fazer música. O que se vê no palco são músicos ainda jovens, que parecem estar felizes e satisfeitos quando produzem arte.

E foi nesse espírito que no espetáculo de sábado alguns momentos se destacaram do todo: foi muito intensa a interpretação do dramático adágio da Sinfonia de C.P.E. Bach, de caráter proto-romântico, característico do movimento artístico Sturm und Drang (“Tempestade e Ímpeto”), abraçado pelo compositor quando finalmente conseguiu se desvencilhar da função de músico da corte de Frederico II (para quem trabalhou por aproximadamente 30 anos) e encontrar maior liberdade artística como diretor musical em Hamburgo.

Por outro lado, os músicos divertiram o público – com o perdão pelo infame trocadilho – ao interpretarem com leveza a peça que encerrou o programa (o mencionado Divertimento mozartiano). A obra foi levada sem a desagradável pressa que caracteriza algumas das gravações disponíveis dessa partitura composta por um Mozart ainda adolescente.

Aqui, cabe uma observação: houve muita inteligência na montagem do programa: os ouvintes mais atentos puderam captar as similaridades de estilo entre a Sinfonia de Emanuel Bach e o terceiro movimento do Concerto de Haydn, bem como o contraste entre as duas obras de Mozart. Com efeito: o Adágio e Fuga é um prenúncio do Réquiem do próprio compositor, que a essa altura de sua curta existência já filosofava acerca do sentido da vida e da morte, ao passo que o Divertimento é, essencialmente, um produto da genial mente do menino de 16, 17 anos, que se correspondia com a prima Marianne por meio de missivas cujo conteúdo sexual e escatológico faria corar algumas das senhoras (e talvez até mesmo alguns dos senhores) mais conservadoras das boas famílias brasileiras, se pela leitura de tais cartas porventura se interessassem. (*)

Ademais, no mesmo programa se ofereceu ao público a audição do precioso concerto de Haydn (que perde em popularidade para os de J. S. Bach, compostos para a mesma formação – solista, cordas e baixo contínuo), em uma excelente interpretação da spalla Gabriela Queiroz, que aliou virtuosismo a musicalidade e noção de estilo, atributos que, lamentavelmente, nem sempre caminham juntos. Como única ressalva para o espetáculo assistido, fica aqui a sugestão para que a Camerata apresente novamente em ocasiões futuras o Adágio e Fuga: não que a execução tenha sido tecnicamente ruim (muito pelo contrário, a orquestra venceu com méritos o desafio que representa essa obra). Todavia, faltou um pouco mais de pathos, de angústia na interpretação, que soou um pouco contida.

Inegavelmente, a presença de Luís Otávio Santos faz bem à Camerata: afinal, Santos integrou durante anos a célebre orquestra de câmara La Petite Bande, tendo sido diretamente influenciado por ninguém menos que o imenso Sigiswald Kuijken. Kuijken pode ser chamado, sem nenhum exagero, de um dos grandes gênios da música nos tempos atuais. O belga formou a La Petite Bande em 1972 e continua na ativa, desde então. Trata-se de um dos grandes expoentes do movimento conhecido como “performance historicamente informada”, ou “interpretação de época”.

Mas a fama de Kuijken vai além disso: em seus concertos e gravações, o ouvinte pode esperar muito mais do que a mera busca por aquilo que seria, em tese, o meio mais adequado de execução de uma peça de música barroca ou clássica. Na verdade, ele receberá também uma interpretação viva, com sentimento, sem o fanatismo de alguns dos mais assépticos representantes do movimento citado. Na mesma linha atua Luís Otávio Santos: sua inspiradora regência mescla conceitos típicos da interpretação de época, como uso mínimo do vibrato, ao bom gosto musical. O resultado: um C. P. E. Bach que soa como o gênio inovador ainda não tão valorizado como deveria ser (afinal, a sombra do pai é pesada…); um Haydn que nos chega extremamente elegante, clássico, na medida certa, não soando tedioso ou anônimo, eis que quando Haydn é bem compreendido percebe-se em suas obras o gigantesco compositor que foi; um Mozart acima de tudo humano, capaz de oscilar com a mesma genialidade entre a alegria juvenil e o pesar dos que pressentem que o fim de sua própria existência já está próximo.

Se incorporarmos ao nosso cotidiano algumas das subjetivas lições que um concerto como esse nos ensina e conseguirmos nos desligar das preocupações imediatistas deste nosso século por alguns instantes durante a semana, buscando nos conectar com o mundo musical dos antigos, entenderemos, cada vez mais, que de pouco ou nada adianta acelerar o tempo todo. As preocupações um dia irão passar, a arte não. Desacelerar é preciso.

Caso haja algum leitor ou leitora que seja mais liberal em suas escolhas literárias, seguem as cartas traduzidas para o espanhol: http://onomatopeyadeloindecible.blogspot.com/2014/05/cartas-de-mozart-su-prima-basle.html 

 

Foto: Thiago Guimarães

Faça seu comentário
Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.