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Staunton Music Festival 2019

Com maior frequência, porém, os concertos ofereciam, dentro dos temas propostos, peças pequenas, avulsas, independentes.

 

O formato básico deste Festival tem sido o de apresentar em trinta concertos oferecidos anualmente em agosto, durante dez dias consecutivos, um panorama seleto da música erudita ocidental. Esta concepção tem-se acentuado em anos recentes, e em sua 22a. edição, que acaba de ser realizada, este pacote compacto afirmou ainda mais a sua diversidade.

Entre a média diária de três concertos, dos quais os mais longos e substanciosos eram os noturnos, a inauguração e o encerramento foram caracterizados por obras maiores, histórica e esteticamente: “Theodora”, de  George Frederick Händel, e a “Paixão segundo São Mateus”, de Johann Sebastian Bach, respectivamente. Outra característica que vem se acentuando cada vez mais, é a de subordinar os programas individuais a temas, abordados ou por um ou mais compositores, ou bem por um determinado período, ou por composições de séculos diferentes, por vezes contrastantes, ou ainda por obras extensas, capazes de preencher  sozinhas um longo concerto, com ou sem intervalos.

Com maior frequência, porém, os concertos ofereciam, dentro dos temas propostos, peças pequenas, avulsas, independentes, ou fora de seus contextos originais, complementados por obras completas, de maior duração, para finalizar os concertos. Tudo isso selecionado de um repertório cuja cronologia começa no seculo XII europeu, e vem até os dias de hoje.

A ideia norteadora de Carsten Schimidt, o diretor artístico do Festival, é a de que qualidade é algo atemporal, e sempre expressa os anseios humanos do período em que as obras foram criadas, e da sensibilidade do público a que se destinavam, fossem ou não aceitas, fossem ou não conformes aos padrões de gosto vigentes no momento de suas estreias, ou fossem muito adiantadas para o seu tempo, e tivessem que esperar a passagem do tempo, até conseguirem a consagração que hoje têm.

Esse critério oferece ao público ampla gama de informações, muitas vezes de grande beleza e impacto, cuja apresentação em poucos e descontínuos minutos não permite profundidade, além de quebrar a magia do efeito com o ruido extra musical dos aplausos do público, cada vez que os músicos se revezam entrando e saindo do palco antes e depois de se apresentarem. Some-se a isso a arrumação das estantes e das cadeiras para os intérpretes, para se ter uma ideia da descontinuidade e da inevitável perda de  tempo no vazio.

 

Theodora

Dito isso, vamos á qualidade, que é o que mais importa. “Theodora” é um oratório dramático, e nesta produção, ele foi semi-encenado. Fugindo de seus hábitos de compor sobre temas da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento, nesta obra Händel contou com um libretto de Thomas Marell, cuja ação se passa no 4o. século de nossa era, e tem por tema o perigo da prática clandestina do cristianismo por membros da aristocracia romana, durante o império de Diocleciano, quando a religião oficial pagã punia com pena de morte a adoção das crenças cristãs. Neste contexto, a Templo de Vênus serve de bordel, mas a nobre Theodora está preocupada com seus valores interiores e sua voda post-mortem, em meio a um mundo sórdido de violência, traições e pseudo-valores.

A estreia foi um fracasso, e salvas poucas apresentações posteriores, esta obra só foi redescoberta há poucos anos, e ocupa hoje um lugar de destaque no repertório barroco, graças à qualidade sublime de sua músíca e ao tema de busca espiritual no mundo conturbado em que vivemos. Esta versão foi um triunfo de cinco cantores jovens, de vozes frescas, fortes e sutis, treinadas para enfrentar o estilo vocal ornamental que as obras de Händel exigem, incluindo contra-tenores. Carsen Schmidt regeu a orquestra de câmara com grande domínio de estilo, e com especial atenção à harmonia entre os instrumentistas e os vocalistas, que também  integraram o coro do povo romano, emprestando-lhe especial intensidade e vigor.

Nos concertos dos dias que se seguiram, os temas eram sempre atraentes. Um deles por exemplo, foi “Da alvorada ao crepúsculo”, e incluiu as sinfonias manhã e noite, de Haydn, da alvorada ao meio-dia, de La Mer, de Debussy, Tramontina, de Respighi, Night Music, de George Crumb, e Moon River, de Mancini;  e, para contraste, a antifonia O Quam Mirabilis, da abadessa beneditina do século XII, Hildegard von Bingen, que ligou de maneira atemporal, eterna, o humano e o divino.

Outro tema atraente foi “Canções de amor e guerra”, que reuniu desde “Universo”, obra para bandoneon e guitarra, do argentino J. P. Jofre,na execução do próprio compositor, até “So in love”, de Cole Porter, passando pelos madrigais guerreiros e amorosos de Claudio Monteverdi, e “A valsa de canções amorosas”, de  Johannes Brahms.

Em continuação aos temas atraentes, veio “Mágica e travessuras”, uma antecipação a outro festival, que se realiza também em Staunton, em Setembro, e que reúne novelistas, poetas, compositores e artistas plásticos, o qual teve, em anos anteriores, temas como “Sonho de uma  noite de verão”, de Shakespeare, e “Doutor Fausto”, de Thomas Mann, entre outros.

Neste concerto, foram oferecidas árias da Flauta Mágica, de Mozart, a abertura e passacaglia, da ópera Armide, de Jean Baptiste Lully, a tempestade, da ópera Plateia, de Jean Philippe Rameau, e uma estreia mundial, Book of Spells, o Livro de Bruxarias de Zachary Wadesworth, obra comissionada pelo Festival, e inspirada na tradição de feiticeiros da literatura clássica greco-romana, de Homero às óperas do barroco francês, passando pela idade média, pela renascença e pela tradição árabe. Completou o programa, Anjos Negros, treze imagens do pais sombrio, uma obra esotérica de vanguarda para quarteto de guitarras elétricas de George Crumb.

Outro tema de muito interesse foi “Extravagância” de teclados antigos, uma ebuliente reunião de concertos para cravos de J. S. Bach, Nicolas Clérambault, Antoine Fourgueray, a fantasia para piano forte, a quatro mãos, D. 940, de Franz Schubert, canções e motetos de W. A. Mozart e Heinrich Schütz, o capricho brilhante opus 22, de Felix  Mendelssohn, e a estreia mundial de “Dias Antigos”, para dois organistas de Zachary Wadsworth, uma obra de sons arcaicos e outros, muito avançados, que evocam a perenidade do divino.

Já “Dinastia”, um programa que reuniu obras de vários membros da família Bach, evidenciou, mais uma vez, (como se isso fosse realmente necessário?) que se não fosse pelo gênio de Johann Sebastian, seus ancestrais e seus descendentes provavelmente já teriam sido esquecidos, como tantos outros, que ostentavam nomes menos ilustres, pelo caráter pouco marcante de suas obras.

Algo semelhante ocorreu com o concerto dedicado a Georg Philip Telemann, cujos concertos executados hoje em grande número, juntos, num só programa, nos impacientam, por serem tão pouco imaginosos, tão enfadonhos, tão música de fundo e entretenimento, depois de ouvimos os concertos de J. S. Bach.p, por exemplo.

Já o concerto que combinou obras vocais e para piano, de Robert Schumann e o quinteto para cordas N°2 opus 87, de Felix Mendelssohn, foi uma jornada pelas invenções, o cromatismo e as ricas estruturas, do romantismo  alemão.

 

Tango

Pontos altos do festival, foram os três concertos programados para o final de noite, destinados a públicos de apenas 50 pessoas, e oferecidos em livraria, mansão particular, e subsolo de igreja, todos eles vibrantes, apaixonados de alta virtuosidade. Executados com muita carga emocional, em ambientes pequenos, lotados de públicos congeniais e entusiastas. Basta mencionar os programas, para se ter uma ideia do clima: La Folia, obras para instrumentos de corda de Vivaldi, Biber e Paganini; Livro de canções: 600 anos de melodias vocais da idade média à Broadway; Loucura de tango: instrumentistas renomados argentinos aqueceram o público nórdico com os sons de Piazzolla, Jofre e outros.

Aliás, um dos destaques do Festival, foi a apresentação de María de Buenos Aires , a obra prima de Astor Piazolla, uma òpera em duas partes para narrador, cantores e orquestra, sobre textos de Horácio Ferrer, com solistas e vocalistas argentinos. Os tangos e as milongas do mestre, em exuberante orquestração, e as vozes dramáticas dos protagonistas, narram a história dos percalços da vida da jovem María, mulher anônima do povo, com fortes alusões bíblicas, em sua saga de sofrimentos e redenção, tendo por cenário os sombrios e turvos cabarés portenhos. Uma emocionante ópera moderna, patética, poética, humana, criada originalmente para a inesquecível Amelita Baltar.

O festival ofereceu uma produção de obras de quilate, executadas com brio. Delas, vale a pena destacar a Sagração da primavera, de Stravinsky, numa transcrição para dois pianos e percussão, várias obras do compositor holandês contemporâneo, Willem Jeths, artista residente do Festival deste ano, o Septeto de Saint Saëns, o Octeto de Mendelssohn, uma apresentação comentada de instrumentos antigos, o monólogo de Allan Blank  sobre os conflitos éticos da Rainha Esther, dividida entre a fidelidade ao Rei e seus deveres para com a sua família e seu povo. Menção especial seja feita às notas de programa, detalhadamente pesquisadas e claramente escritas por Jason Stell.

 

Paixão de São João

O festival foi encerrado apoteoticamente com a apresentação impecável da Paixão Segundo São Mateus, plena de drama e tensões, regida com grande domínio, energia e sutileza, por Carsen Schmidt, na lotada e histórica Igreja Episcopal, na ensolarada tarde de 25 de Agosto, que refletia, inebriantes, as cores de tons e semi-tons dos espirituais vitrais antigos, criados pela magia de Tiffany.

As dezenas de vozes e de instrumentistas  que formaram o exército de músicos do qual se deve o fervor do Festival, são jovens artistas, competentes e dedicados, dentre os quais estão certamente alguns astros e estrelas que despontarão em breve. E os que já estão maduros e seguros, reafirmarem todas as suas qualidades nesses intensos dez dias.

 

JOSÉ NEISTEIN – WASHINGTON, D.C.

 

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José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.