CríticaÓpera

Um “Matrimonio” divertido

Encenação eficiente, ótima orquestra e elenco irregular marcam produção de “Il Matrimonio Segreto” no Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém.

 

Pai de duas filhas, Geronimo é um rico comerciante que acerta o casamento de sua primogênita, Elisetta, com um pretendente nobre, o Conde Robinson. Quando vai à casa do seu futuro sogro para conhecer a noiva, o Conde acaba se encantando, na verdade, com a caçula da família, Carolina, e decide trocar de noiva, abrindo mão de metade do dote inicialmente combinado.

O problema é que Carolina já se casou em segredo com Paolino, empregado do pai, antes mesmo de a cortina subir (por isso o título da obra). Paolino, por sua vez, é desejado por Fidalma, a viúva rica que é irmã de Geronimo e uma espécie de governanta da casa. Depois das costumeiras reviravoltas cômicas e de muita boa música, tudo acaba bem.

Assim é a trama de Il Matrimonio Segreto (O Matrimônio Secreto), ópera-bufa em dois atos de Domenico Cimarosa sobre libreto de Giovanni Bertati, com base na comédia The Clandestine Marriage, de George Colman e David Garrick, e que é a primeira produção do XVIII Festival de Ópera do Theatro da Paz, com récitas até 10 de setembro.

 

Uma ópera com seis protagonistas

Estreada no Burgtheater, em Viena, em 7 de fevereiro de 1792, a obra é uma comédia de equívocos, ou seja, tem um enredo no qual uma série de equívocos vão se sucedendo até que um desenlace os resolva. No caso de Il Matrimonio Segreto, o desejo do Conde de trocar Elisetta por Carolina, o interesse de Fidalma por Paolino e as suspeitas de Elisetta, Fidalma e Geronimo sobre as reais intenções de Carolina em relação ao Conde não existiriam se todos soubessem que a caçula da casa já estava casada com Paolino. Assim, é o “matrimônio secreto” dos jovens amantes a origem dos equívocos que proporcionam a comédia.

Nesta ópera sem coro, os seis personagens são protagonistas. Carolina poderia, em certa medida, ser apontada como a personagem central, mas isso significaria, ao mesmo tempo, retirar injustamente a importância de todos na construção dramática da obra. Tanto que, em Belém, a exemplo do que já ocorrera em 2018 quando esta obra foi apresentada na temporada do Theatro São Pedro, de São Paulo, todos os solistas entraram juntos no palco para receber os aplausos do público ao fim do espetáculo.

Domenico Cimarosa criou para o libreto de Bertati uma música muito especial – música esta que certamente viria a influenciar Rossini em alguma medida. Considerada a sua obra-prima – e a única de suas óperas que ainda integra o chamado “repertório internacional” – Il Matrimonio Segreto conta com melodias inspiradas, dotadas de leveza e frescor. O compositor constrói uma obra sólida e cativante que, apesar de sua relativamente longa duração, faz com que o espectador nem perceba o tempo passar quando ela é bem encenada e bem cantada.

Kézia Andrade, Edneia Oliveira e Lanna Bastos

Anacronismo arrebata o público

Em sua concepção para a produção do Theatro da Paz, o encenador Walter Neiva cria uma ambientação tradicional que é enriquecida por uma direção de cena muito competente. A comédia flui com naturalidade, e todos em cena (os seis solistas e os três atores figurantes) têm atuações seguras, gerando um resultado final bastante divertido.

O cenário em perspectiva de Claudio Rêgo é funcional, retrata uma sala na casa de Geronimo, com três portas de cada lado, e, com alguns poucos elementos cênicos, como mesa e cadeiras, serve muito bem à ação. A iluminação de Rubens Almeida, apesar de bastante convencional e de oferecer poucas variações, procura valorizar o cenário.

Os figurinos de Fernando Leite – brancos quando os personagens se apresentam em trajes de dormir, e coloridos quando devidamente “montados”, tendo cada personagem uma cor predominante –, embora não sejam exatamente ricos em sua realização, dão um adequado tom caricato à montagem.

Vale ainda destacar que a encenação de Walter Neiva tem o seu ápice em uma cena muito bem resolvida, quase no fim do primeiro ato: quando os seis personagens estão absortos em seus pensamentos, sobre versos como “Che tristo silenzio! / Parlare conviene” (“Que triste silêncio! / Convém falar alguma coisa”, em tradução livre), todos sacam os seus smartphones e usam os dedos para operar os seus respectivos aparelhos. Em outras palavras: embora todos pensem conjuntamente que deveriam dizer alguma coisa naquele momento, permanecem por alguns minutos absorvidos pelos “encantos” dos smartphones.

Apesar de anacrônica, por colocar telefones celulares nas mãos de personagens com trajes de época, a cena é uma crítica ao mesmo tempo inteligente e divertida à dificuldade de comunicação direta dos nossos dias, quando muitas vezes identificamos que alguns indivíduos se sentem mais à vontade trocando mensagens por aplicativos do que conversando pessoalmente. Na récita de estreia, em 06 de setembro, essa cena arrebatou o público, que a aplaudiu com entusiasmo.

Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz e Miguel Campos Neto

Vozes irregulares

Indicada pelo Movimento.com por dois anos consecutivos (2017 e 2018) como a melhor orquestra de ópera do país, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, uma vez mais, mostrou porque mereceu tais indicações. Conduzido por seu regente titular, Miguel Campos Neto, o conjunto apresentou excelente sonoridade e boa articulação desde a Sinfonia que abre a obra. O regente conduziu a ópera com segurança e atenta leitura dinâmica. É preciso dizer, porém, que o fluxo das passagens em recitativo secco foi um pouco atrapalhado pela aparente falta de intimidade da pianista Ana Maria Adade com esse estilo.

Houve clara irregularidade entre os seis solistas da montagem. A soprano Lanna Bastos (Elisetta) apresentou problemas técnicos que a levaram a comprometer a afinação em alguns momentos. Sua ária, Se son vendicata, foi abordada sem refinamento, e nem nos números de conjunto a soprano chegou a brilhar.

O tenor Antonio Wilson seguia pelo mesmo caminho ao interpretar Paolino, mas melhorou um pouco no segundo ato. Sua ária, Pria che spunti in ciel l’aurora, se esteve longe de ser perfeita, foi ao menos aceitável. E foi boa a sua participação no dueto com Fidalma (que evolui para terceto com a chegada de Carolina), Sento, ohimè, che mi vien male.

A Carolina da soprano Kézia Andrade cresceu ao longo da récita. Depois de começar um tanto insegura em passagens como a introdução ao primeiro ato e o dueto com o tenor (respectivamente Cara, non dubitar e Io ti lascio perché uniti), a artista apresentou-se mais eficiente no quarteto Sento in petto un freddo gelo e no seu recitativo acompanhado do segundo ato, Come tacerlo poi, se in un ritiro.

A mezzosoprano Edneia Oliveira compôs uma Fidalma engraçadíssima. Se a sua voz, por vezes, parecia ter um pouco menos de projeção em relação aos demais solistas, por outro lado chegava ao ouvido com um timbre escuro muito bonito. Assim, a artista apresentou-se bem em passagens como a ária È vero che in casa e o terceto Cosa farete? (junto a Elisetta e Geronimo).

O barítono Felipe Oliveira esteve muito bem como o Conde Robinson, exibindo uma voz bem projetada e bastante segura. Sua cavatina do primeiro ato, Senza, senza cerimonie, foi muito bem interpretada, assim como a sua ária do segundo ato, Son lunatico, bilioso. O artista se destacou ainda em números de conjunto, como o já citado quarteto Sento in petto un freddo gelo e o dueto com o baixo, Se fiato in corpo avete.

O baixo Saulo Javan interpretou um Geronimo impecável, com a voz mais bem projetada da noite. Desde a sua cavatina Udite, tutti udite, passando por todos os números de conjunto de que participou, como o já citado dueto com o barítono e os dois números musicais que encerram os dois atos da ópera, o artista ofereceu uma performance especial, mesclando a solidez do seu canto com uma excelente atuação cênica.

Assim, pelo que se pode observar acima, e descontados alguns poucos senões, começou bem o XVIII Festival de Ópera do Theatro da Paz, que, depois deste Il Matrimonio Segreto, apresentará ainda este ano as óperas Suor Angelica, de Puccini, em outubro, e Amahl e os visitantes da noite, de Gian Carlo Menotti, em dezembro.

Saulo Javan e Felipe Oliveira

Mudança com respeito

É muito comum, na gestão pública no Brasil, que os novos ocupantes de cargos públicos simplesmente ignorem as gestões realizadas pelos seus antecessores, mesmo quando estes trabalhos são amplamente reconhecidos, ou tenham aspectos positivos. A atual polarização política em nível nacional não me deixa mentir. No âmbito específico da gestão pública cultural, não é diferente, e constantemente o desrespeito pelo trabalho realizado pelos antecessores impera.

Assim, foi muito positivo constatar em Belém que as mudanças na gestão da Secretaria de Cultura do Pará e na direção do Festival de Ópera do Theatro da Paz ocorreram não sem reconhecer o trabalho e o esforço dos seus antecessores. Em um rápido pronunciamento antes da récita de estreia de Il Matrimonio Segreto, a secretária de Cultura do Pará, Úrsula Vidal, fez questão de citar o trabalho realizado pelo ex-diretor do Festival, Gilberto Chaves, que estava presente na casa prestigiando a estreia de mais uma ópera em Belém. Antes disso, este autor já tinha observado o ex-diretor no saguão de entrada conversando com os atuais diretor geral e diretora artística do Festival, respectivamente Daniel Araújo e Jena Vieira. Esse respeito entre antecessor e sucessores deveria servir de exemplo para muitas pessoas que atuam na gestão pública em nosso país.

 

Fotos: Mário Quadros.
Na foto do post, Kézia Andrade, Felipe Oliveira, Saulo Javan, Edneia Oliveira, Lanna Bastos e Antonio Wilson.

Leonardo Marques viajou a Belém a convite da direção do XVIII Festival de Ópera do Theatro da Paz e da Secretaria de Estado de Cultura do Pará.

 

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com