CríticaEspírito SantoLateralMúsica sinfônica

Um mundo além do nosso

Se a música fosse algo exclusivamente objetivo, os espetáculos seriam rigorosamente iguais. Como uma espécie de receita de bolo: coloque no palco tantos violinistas, violistas etc., e, desde que sejam eles capazes de tocar todas as notas que constam na partitura, terás a Nona Sinfonia de Beethoven. Uma vez por outra apareceria algum ingrediente exótico, como a gravação do canto de um rouxinol, empregado em I Pini di Roma, de Respighi, mas ainda assim os resultados seriam os mesmos. As Bachianas Brasileiras executadas em Ecoporanga soariam como aquelas tocadas em Berlim.

Felizmente, as coisas não são desse jeito. Os aspectos subjetivos da interpretação musical, que englobam conceitos às vezes complexos (1), como “musicalidade” (“susceptibilidade ou sensibilidade a padrões ou a propostas rítmicas ou tonais que são a substância do discurso musical”, que para alguns autores seria uma característica comum a todos os seres humanos, ainda que em graus variáveis de manifestação), “talento” (para os autores mencionados, seria o resultado de uma musicalidade elevada) e “intuição” (“capacidade específica de fazer escolhas musicais em um nível não consciente”) fazem toda a diferença em um concerto. São até mais importantes que a capacidade de tocar, sem errar, todas as notas da partitura. O YouTube está cheio de vídeos de execuções tecnicamente impecáveis que, aos ouvidos do melômano mais calejado, soam insossas.

Vez por outra, presenciamos a atuação de um músico que está em um patamar acima da média em tais aspectos subjetivos. Esse é o caso de Antônio Meneses. O violoncelista, cuja biografia pode ser facilmente encontrada na internet, há muito se estabeleceu como um dos grandes nomes da música clássica. Ele é capaz de reunir um público eclético, como foi aquele que se fez presente em grande número no Teatro Universitário da Ufes, em Vitória (ES), em uma pouco promissora noite 24 de setembro. Meneses entraria no palco após a Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo (Oses) apresentar, sob a regência do competente Neil Thomson, duas peças de Antonín Dvořák: a Abertura da ópera Vanda, op. 25, e a Suíte Tcheca, op. 39. Tais obras prepararam o espírito do público para o que viria a seguir.

Falemos sobre elas: a Abertura, obra pouco conhecida, é marcada pelos ritmos enérgicos característicos de boa parte da música nacionalista dos compositores boêmios, como o próprio Dvořák, Smetana e Janáček. Por sua vez, a Suíte alterna movimentos de grande inventividade melódica e profundo lirismo, como a Pastorale e o Romance, com outros de grande dinamismo e força, como a Furiant que encerra a peça e que empolgou os presentes, que aplaudiram efusivamente tanto o regente como a orquestra. Houve, de fato, um ou outro deslize na afinação, mas nada que chegasse a prejudicar a apreciação das duas obras. Com efeito: orquestra e regente souberam transmitir a essência das duas obras, brindando o público com belas passagens musicais (tanto líricas, quanto rítmicas).

O que prejudicou o espetáculo, em um número de oportunidades maior do que o que seria aceitável, foi a barulheira de algumas crianças que estavam no recinto. Não pense o querido leitor ou leitora que este crítico é um sujeito ranzinza: afinal, acho extremamente válida a iniciativa de se levar as crianças aos concertos de música clássica desde a mais tenra idade, tanto é que já levei e continuarei a levar os meus filhos.

Todavia, considerando que as duas orquestras atuantes no Espírito Santo (a Oses e a Camerata Sesi) regularmente apresentam os chamados Concertos para a Família, idealizados especificamente para levarmos os pequenos, chega a ser uma crueldade levar um menino de dois anos de idade para uma sala escura, cheia de adultos, à noite, para ouvir uma orquestra tocar ininterruptamente músicas que nada tem a ver com a Galinha Pintadinha.

O resultado disso: diversos momentos de choro, músicos visivelmente incomodados no palco por terem sua concentração prejudicada e um clima perceptível de mau humor em boa parte da plateia durante tais interrupções. Uma atmosfera bem distinta dos concertos preparados para o público infantil, quando o que se vê são pais e mães sorridentes, crianças encantadas com a descoberta do mundo da música clássica e artistas satisfeitos em atingir com seu trabalho esse público tão especial. Enfim, vida que segue…


Solista

Meneses ingressou no palco para se juntar à Oses e a Thomson na interpretação do magnífico Concerto para violoncelo e orquestra, op. 104, do mesmo compositor das obras anteriores. E assim, um espetáculo que já estava bom tornou-se algo inesquecível para quem pode presenciá-lo. Meneses não é dado a excentricidades: trajado de forma sóbria, é músico de poucos movimentos no palco. Nota-se, apenas, um ligeiro balançar para ambos os lados, acompanhando o ritmo da música.

Vez por outra, olha em direção ao regente, apenas para garantir que sua atuação como solista está em harmonia com aquilo que a orquestra está tocando. Não é de fazer caretas: apenas os muito atentos perceberam um discreto ar de esforço nas passagens mais difíceis e um quase invisível muxoxo em um trecho extremamente complicado no final do primeiro movimento, que não saiu absolutamente perfeito (sendo tal perfeição algo absolutamente desnecessário).

Por outro lado, muito nítidos são os tais atributos subjetivos da interpretação: o som estrondoso que jorra do violoncelo nas passagens mais fortes, e que se alterna com momentos em que a sutileza do artista era tamanha que foi possível ouvir o ruído mínimo e constante do ar condicionado da sala; a estratégica demora em uma ou outra nota, sem exageros ou pieguices, demora essa que se prolonga apenas pelo exato tempo necessário para chamar a atenção do ouvinte; a perfeição no estilo cantabile na execução.

Acerca desse último aspecto: diz-se que o violoncelo é o instrumento cujo som mais se assemelha ao da voz humana. Verdade ou não, o fato é que o violoncelo de Antonio Meneses canta como um Jussi Björling, um Beniamino Gigli, um Alain Vanzo, um Milton Nascimento, ou até mesmo como uma mãe que acalenta o seu filho. Essa capacidade de acalentar fez, do segundo movimento do concerto, um momento de perfeição artística – Meneses, a Oses e Thomson merecem todos os elogios por esse feito.

Após essa inebriante execução do Concerto, Meneses presenteou o público com um bis: a Sarabande da Suíte nº 3, de J. S. Bach. Alguém disse certa vez que a música de Bach poderia levar um ateu à conversão. Bem, se o objetivo fosse realmente esse, Meneses seria um excelente missionário: nesse momento, para aqueles que creem na existência de um Ser Superior, ouviu-se a voz de Deus (ou pelo menos a voz de alguém que sinceramente se dirige a Ele). Mas, ainda que o eventual espectador queira exercer o seu inviolável direito de crer ou deixar de crer no que quer que seja, necessariamente teria que concordar com a frase dita por um dos presentes: “parece que ele toca exclusivamente para nós!”.

Um artista atinge seu auge quando estabelece uma linha de comunicação eficaz com o seu público. Poucos conseguem um grau pessoal de comunicação. Antônio Meneses é um desses poucos: ele nos transporta para um outro mundo. Um mundo além do nosso.

 

(1) Os citados aqui foram retirados do trabalho a seguir: NASSIF, Silvia Cordeiro. Reflexões sobre o conceito de musicalidade: em busca de novas perspectivas teóricas para a educação musical. 2005. 225 p. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em: <http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/252647>. Acesso em: 25 set. 2019.

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.