CríticaLateralÓpera

Uma experimentação musical

Entre altos e baixos, obra inédita de Flo Menezes teve a sua estreia no Theatro São Pedro.

 

Ritos de Perpassagem, a obra inédita com música e libreto de Flo Menezes que encerrou no último fim de semana a temporada lírica oficial do Theatro São Pedro (ainda há pela frente duas produções apresentadas por alunos da Academia de Ópera da casa), certamente deve ter causado reações bem distintas no público que passou pelo teatro de ópera da Barra Funda nos três dias de apresentações.

Em primeiro lugar, é importante destacar a iniciativa da Santa Marcelina Cultura, que administra o Theatro São Pedro, de encomendar uma nova obra a um compositor brasileiro. Nos últimos anos, óperas brasileiras relativamente recentes, como Olga, de Jorge Antunes, e Piedade, de João Guilherme Ripper, chegaram inclusive a teatros do exterior. Nada mais natural, portanto, que o interesse dos gestores do Theatro São Pedro em fomentar a produção atual.

Inspirado basicamente em três temas – o chamado pitagorismo (conjunto de ideias filosóficas e doutrinas semirreligiosas que constituem o pensamento do filósofo e matemático grego Pitágoras); os ritos de passagem; e os neutrinos – Flo Menezes constrói uma obra em que busca mesclar esses temas, mas sem necessariamente contar uma história, e, sim narrar o que ele chama de uma “situação filosófica, humana, que atravessa os séculos”. Além disso, como o próprio compositor declarou antecipadamente, em um vídeo disponibilizado nas redes sociais do Theatro São Pedro e em depoimentos à imprensa, ele buscou em Ritos de Perpassagem desconstruir a ópera como a conhecemos.

Na noite do dia 27 de setembro, logo na entrada do teatro, já foi possível perceber uma mistura entre público e artistas. Com as portas da sala de espetáculo ainda fechadas, todos estavam juntos no foyer do teatro, e o canto e a música começaram ali mesmo. Perto deste autor, por exemplo, passaram músicos tocando trompete, trombone e flautim, além de dois cantores.

Quando o acesso à sala de espetáculo finalmente foi liberado, lá estava, bem no meio da plateia, o compositor, comandando com dois auxiliares uma ilha de eletroacústica. A apresentação tomou todo o teatro, acontecendo não somente no palco e no fosso da orquestra, mas também no meio e nos corredores da plateia e nos balcões. Os solistas não interpretavam personagens fixos, e alguns personagens, como Pitágoras, Johannes Kepler e Santo Agostinho foram interpretados por diversos cantores.

 

Desconstruída, a ópera continua sendo ópera?

Apenas por essas observações iniciais, já é possível concluir que o objetivo do compositor de desconstruir a ópera foi alcançado. Restavam as dúvidas: essa desconstrução, por acaso, levaria a algum lugar? Ao desconstruir a ópera, continuaria a obra sendo uma ópera? Chegamos então aos dois principais problemas de Ritos de Perpassagem.

Mesmo a obra não contando uma história linear, é natural que o ouvinte/espectador queira entender ao menos o que está sendo falado e cantado pelos intérpretes. O primeiro grande problema foi a utilização de nove idiomas diferentes (para que? / por qual motivo?) para expressar a colcha de retalhos de citações que integra o libreto. Isso gerou uma dificuldade grande de entendimento, sobretudo no chamado “primeiro trans-ato”, quando em boa parte do tempo ouvia-se mais de um cantor ao mesmo tempo cantando em idiomas diferentes.

Achei que, talvez, o problema pudesse ser só meu, mas tanto no intervalo, quanto no fim da apresentação, essa foi uma reclamação constante nas conversas que tive com conhecidos que também foram à estreia. A maioria disse mais ou menos a mesma coisa: se você tentava prestar atenção em alguém cantando em português ou em uma língua familiar, logo vinha outro cantor cantando ao mesmo tempo em outro idioma não familiar e, na ânsia de entender o que ele estava cantando, recorria-se à legenda, mas aí se perdia o que o outro cantor estava cantando em língua familiar. Além disso, por vezes, o texto da legenda era grande, e a audição simultânea de outra coisa em uma língua familiar, dificultava a conclusão da leitura antes que a legenda fosse trocada.

Se a filosofia é um tema caro ao compositor, e isso resta evidente, se era seu objetivo difundir ideias filosóficas, e isso também resta evidente, se os textos utilizados eram qualificados e de grande interesse, a apresentação desses textos divididos por tantos idiomas sem uma justificativa clara (alguns dos personagens se expressaram em vários idiomas em momentos diferentes) fez com que a sua compreensão, muitas vezes, ficasse prejudicada, como descrito no parágrafo anterior.

O segundo problema é a busca pela resposta da pergunta de alguns parágrafos acima: desconstruída, a ópera continua sendo ópera? Essa discussão pode ser infinita, mas me atenho às palavras do próprio compositor. Para Flo Menezes, os elementos básicos da ópera seriam “a indumentária, a iluminação, a cenografia, o texto e a música”, mas essa é, a meu ver, uma redução um tanto simples demais para alguém que almejou criar uma obra tão complexa, porque, dentre outros aspectos que aqui não vêm muito ao caso, o compositor parece ter se esquecido do drama.

Texto é uma coisa, drama é outra – e o drama aqui entendido em seu sentido mais amplo, de conflito, no qual está inserida a própria comédia. Uma bula de remédio e esta resenha são textos, mas não são dramas. Hamlet e As Alegres Comadres de Windsor, além de textos, são dramas escritos por Shakespeare (a segunda peça, claro, um drama de caráter cômico). Faço aqui a minha provocação: Ritos de Perpassagem é uma obra rica em textos, mas será também rica em drama? Onde está o drama na obra de Menezes? Seria o drama da existência? Existe ópera sem drama?

Sem de forma alguma ter a empáfia de me autointitular alguém que possa dar respostas definitivas a essas questões, deixo-as aqui para a reflexão dos leitores que assistiram a alguma das apresentações da obra no Theatro São Pedro.

 

Instalação musical

Por outro lado, se deixamos de lado essa dúvida sobre se, depois de desconstruída, a ópera continua sendo ópera, e se consideramos Ritos de Perpassagem apenas como uma obra musical, encontraremos os seus aspectos mais positivos, a começar pela música. Ao mesclar elementos tradicionais com a música eletroacústica e até mesmo a chamada música acusmática, percebemos uma experimentação musical bastante instigante, ou, como bem definiu alguém no intervalo, uma instalação musical, da qual inclusive faz parte o público.

Passagens como Echemythia [a iniciação silenciosa], no primeiro trans-ato, eram provocativas na medida exata, tanto quanto a frase projetada “O que se ouve é apenas um aspecto do inaudível”, com a qual o compositor parafraseou Anaxágoras (“O que se vê é apenas um aspecto do invisível”).

A espécie de entrevista que as filhas de Karl Marx fazem com o pai no começo do segundo trans-ato foi outro momento bastante inspirado – entrevista essa repetida mais adiante com o próprio compositor. E, entre as duas entrevistas, destaca-se especialmente a resposta à última pergunta, sobre qual seria a sua máxima: a de Marx é “Nada que é humano me é estranho”, enquanto a do compositor é “Muito do que é humano me deixa puto”.

Se um dos objetivos principais do compositor era fazer o auditório especular sobre o sentido daquele emaranhado de citações, tal objetivo foi alcançado, e certamente em níveis diversos, porque há desde quem tenha ido embora no intervalo até quem ficou até o final, mesmo não entendendo nada, pela pura curiosidade despertada.

É difícil avaliar, como em uma apresentação tradicional, a contribuição de cada artista ou grupo artístico que colaborou com a empreitada, dentre outros aspectos pelo fato de a performance ter sido amplificada. O barítono Marcelo Ferreira atuou como uma espécie de narrador. Ricardo Bologna foi o regente, e a encenação (ou, como ele prefere, a realização cênica) coube a Marcelo Gama – e é quase impossível desvendar o que é criação do encenador e o que é determinação do compositor. A criação de vídeo coube a Raimo Benedetti, e a iluminação, a Mirella Brandi, responsáveis pelo resultado mais impactante da criação visual.

Contribuíram também para a realização do espetáculo os cantores do grupo alemão Neue Vocalsolisten (do qual faz parte um contratenor que desafinou desgraçadamente, não sei dizer se de forma proposital – o que é bem possível), o Studio PANaroma de Música Eletroacústica da UNESP, o PIAP – Grupo de Percussão do Instituto de Artes da UNESP e o Coro Contemporâneo de Campinas, além da Orquestra do Theatro São Pedro.

Assim, entre altos e baixos, estreou Ritos de Perpassagem, uma obra que, seja por um motivo ou por outro, ficará por algum tempo nas mentes de quem se dispôs a “experimentá-la” no Theatro São Pedro.

 

Fotos: Heloisa Bortz.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com