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Uma Carmen de coragem

Encenar uma ópera no Brasil, atualmente, é só para os fortes.

Segundo texto publicado recentemente em “O Globo” e replicado na página do Movimento.com, intitulado “Ópera numa hora dessas?”, o Brasil tem “91 teatros de ópera e (…) 144 óperas compostas por 51 compositores, das quais 30, se tanto, foram encenadas”. Esses números convivem com uma realidade dúbia: poucas produções de ópera – se levarmos em conta a quase centena de teatros -, mas muita gente interessada em assistir a elas: basta escolher aleatoriamente qualquer crítica para notar que as produções do Municipal de São Paulo, do São Pedro e de outros teatros têm, em regra, bom público ou casa cheia.

E foi com casa cheia que se encenou, no 7º Festival de Música Erudita do Espírito Santo, a ópera Carmen, de Georges Bizet , da qual falaremos no decorrer do texto. Logo, há gente interessada, há locais para se encenar, há bons e excelentes cantores em busca de uma oportunidade. Só que coisa não engrena. Qual seria a explicação para isso?

 

Uma arte cara nas mãos de quem não domina o assunto

A frase acima resume o pensamento de muita gente envolvida no mundo da Arte Lírica com quem pude conversar nos últimos meses, seja pessoalmente, seja por aplicativos de mensagens, seja em fóruns de discussão na internet. No geral, cantores, encenadores, instrumentistas e outros integrantes dos quadros técnicos não defendem que ópera seja algo essencialmente lucrativo. Quando bem administrada, porém, a produção de uma ópera gera numerosos dividendos, como os citados no texto de ”O Globo” no que tange ao Festival Amazonas de Ópera, que já está na sua 23ª edição, e que exporta produções para outros países, além de gerar emprego e renda para os trabalhadores locais.

Ademais, cria-se uma imagem positiva para o local em que o espetáculo foi encenado. Em contraponto, o que se vê são teatros construídos sem fosso para orquestra, sem portões que permitam a entrada de cenários e, até mesmo, produções em que alguns ou todos os envolvidos levaram um calote dos organizadores, ficando a ver navios na hora de receber seus cachês. Note bem, prezado leitor: o recurso financeiro existe. Mas o que é feito com ele?

Além disso, há fatores nebulosos como o ego de certos figurões do mundo artístico (sejam encenadores, regentes, cantores ou secretários de cultura), a malversação de recursos públicos e a escassez de oferta de trabalho, que por vezes leva um cantor ou uma cantora a aceitar um papel que não lhe cai bem – o que não pode ser repudiado de forma leviana: afinal, há contas a pagar.

 

Felizmente, ainda há esperança 

Daí a minha alegria em presenciar produções com a desta Carmen, encenada nos dias 08 e 10 de novembro no Centro Cultural SESC Glória. Faço, desde já, a seguinte ressalva: não se pode esperar que uma montagem que empregue uma orquestra reduzida, montada especificamente para o evento, bem como um coro de semelhante característica, esteja nos mesmos padrões de uma orquestra e de um coro de um teatro lírico com atividades regulares o ano todo.

Mas foi justamente por conta desse aspecto que se destacou a coragem dos organizadores do evento: Tarcísio Santório (direção geral) e Natércia Lopes (direção artística). Afinal, Vitória não tem um teatro com uma companhia regular de ópera. E mais: ainda não dispõe sequer de um teatro com fosso para a orquestra (o que há são adaptações ou improvisos)! E foi assim, empregando mais de 100 pessoas, que a dupla conseguiu encenar a obra prima de Bizet com bastante dignidade. E, ressalte-se, com excelente presença de público. Público este que, como foi possível notar, era em sua maior parte de neófitos, de gente que nunca havia assistido a uma encenação de ópera na vida.

Considerando as limitações de espaço e de recursos, a direção de cena de Menelick de Carvalho foi bem eficiente: solistas e coro atuaram bem o tempo todo, de modo a contar de forma idiomática uma estória que é o auge do gênero da opéra-comique francesa. As cenas cômicas foram divertidas e as cenas dramáticas foram marcadas pela passionalidade característica do libreto de Halévy e Meilhac.

Essa eficiência se refletiu na reação do público: houve quem risse ruidosamente em algumas passagens nas quais não se ouve mais qualquer reação nos teatros mais tradicionais (de tanto que os melômanos já conhecem o enredo…). Houve até um assobio vindo de algum gaiato no momento em que Carmen, já no último ato e trajada com muita elegância, ingressou no palco na companhia do toureiro Escamillo. Um sujeito um pouco mais mal humorado diria: “mas que absurdo!” (“Un tal baccano in chiesa! Bel rispetto!” – entendedores entenderão.) De minha parte, vejo tais reações de forma extremamente positiva: trata-se da formação de um novo público, que percebe que a ópera não é algo elitista, chato ou inacessível.

Também foram eficientes a cenografia de Colette Dantas, os figurinos de Luza Carvalho e a iluminação de Fábio Retti, que atenderam às propostas da direção de cena. Destacaria aqui, como bons momentos em termos teatrais, a cena das cartas e, sobretudo, a cena final, encenada como um espetáculo grotesco de feminicídio em forma de tourada.

Sob os aspectos musicais, os comprimários, com uma ou duas exceções, cantaram bem, destacando-se em termos cênicos a dupla formada por Willian Donizetti (Dancaïre) e Arifer Gomes (Remendado). Sobressaiu-se o Zuniga de Alessandro Santana, com boa projeção vocal e bastante segurança no papel, sem titubear nas notas mais extremas, agudas ou graves. Quanto aos protagonistas, Homero Velho foi um bom Escamillo, de imponente presença em cena, destacando-se os graves audíveis e afinados nos “Couplets du toréador” .

Muito boa a participação de Luciana Bueno como a cigana Carmen: aplaudidíssima pelo público, Bueno domina o papel, até por já tê-lo cantado em várias outras ocasiões. Opta por uma cigana desafiadora, que ri descaradamente daqueles que conquista e que não pensa duas vezes antes de cuspir no rosto do oficial Zuniga. Como disse um dos espectadores durante um dos intervalos: “barraqueira, ela!”. Vocalmente, a mezzo-soprano destacou-se na “chanson bohème” do segundo ato e na cena das cartas, executadas com muita propriedade.

Fernando Portari apresentou-se mesmo passando por alguns problemas vocais, decorrentes de uma hérnia de hiato que, segundo afirmou o próprio cantor, o tem incomodado há algum tempo. Esta patologia causa, ocasionalmente, dificuldades na respiração, bem como quadros de refluxo e faringite. Felizmente, o problema já foi corretamente diagnosticado e o tenor se submeterá a uma cirurgia no final deste mês de novembro. Ora, em que pese tal quadro de saúde, até por conta de sua imensa experiência Portari desincumbiu-se muito bem do papel.

Como já havíamos notado na Carmen do TMSP em 2014 , o tenor apresentou um Don José idiomático, lírico na tradição de um Georges Thill, de um Albert Lance, de um Roberto Alagna, que fraseia muito bem e que usa com extrema competência as variações de dinâmica. Emblemática a sua ária da flor, interpretada com muita sensibilidade e pensada frase a frase, com um límpido si bemol cantado em pianíssimo na frase “et j’étais une chose à toi”(quando o desequilibrado Don José admite que se tornou uma “propriedade” de Carmen). Se não foi possível prolongar os agudos nas passagens mais dramáticas – sobretudo na cena final com Carmen -, também não se pode dizer que tenham soado curtos, e sim suficientes, além de compensados com o já usual arrojo (melhor dizendo: “slancio”) em cena.

O grande destaque da noite foi a bravíssima Micaëla de Gabriella Pace. A cantora, que recentemente interpretara com grande competência o papel de Vitellia em “La Clemenza di Tito”, mostrou toda a sua versatilidade ao encarnar nos palcos uma personagem completamente distinta: a inocente adolescente que tenta, a todo custo, trazer Don José de volta ao bom caminho. Lamentavelmente, o papel não é tão extenso, mas nos trechos mais célebres Pace hipnotizou o público: esteve muito bem no duo Parle-moi de ma mère!”, mas sobretudo na ária “Je dis, que rien ne m’épouvante”, expressão de fé pura e sincera de uma personagem, escrita por um compositor ateu – uma prova da genialidade de Bizet.

Nesta ária, assistimos a uma grande demonstração do que se pode atingir em matéria de canto lírico de excelência. Voz de timbre agradável, homogêneo, que corre bem o teatro, com agudos seguros e vibrato controlado. Trata-se de artista apta a interpretar com mestria os papéis clássicos das óperas de Gounod (Marguerite, Juliette), a Sophie do Werther de Massenet e outros dessa mesma linhagem.

Por fim, falemos de orquestra, coros, bailarinos e regente: conforme mencionado, são profissionais contratados especialmente para o evento. É inegável que os chamados “corpos estáveis” adquirem a necessária experiência para a execução de um trabalho de excelência na arte lírica. Por outro lado, grupos formados para um festival ou evento específico, ainda que contem com profissionais experientes, tendem a produzir resultados menos satisfatórios.

Feitas tais considerações, foram satisfatórios o desempenho do Coro Lírico da COES, em que pese ter faltado um pouco mais de peso às vozes masculinas graves quando comparadas às agudas, assim como a da Orquestra Sinfônica da COES (que empregou uma formação reduzida, o que não chegou a comprometer). Destacaria aqui o belíssimo solo de flauta no Entr’Acte que precede o Terceiro Ato. Quanto à regência de Gabriel Rhein-Schirato, este cumpriu com competência a árdua missão de conduzir todo esse conjunto, em um contexto que, como exposto, não era dos mais fáceis.

Perspectivas para o futuro  

Deixei para o final, e foi de propósito, a menção ao Coro Infantil – Coral Show, a meu ver a grande surpresa positiva da noite. As crianças cantaram de forma encantadora, com boa dicção, afinação adequada e bom volume, além de se portarem muito bem em cena. Ver crianças atuando tão bem em um palco de ópera, assistidas por um público que parecia descobrir um novo universo para si, em uma montagem de uma ópera tão difícil de ser realizada em uma cidade que não conta com uma tradição lírica consolidada me passa a impressão, ou a quase certeza, de que há um futuro promissor para a ópera, embora muitos pensem o contrário. O caminho está em entregar a gestão para aqueles que realmente gostam do assunto (como foi feito nesse Festival), trabalhar com entusiasmo e permitir o acesso àqueles que ainda não conhecem essa forma tão elevada de arte. Parabéns a todos os envolvidos nesta corajosa Carmen.

 

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.